ENSAIOS PESSOANOS: Os erros de Salazar

Por João Alves das Neves

No capítulo que rotulou de “Interregno-II”, apresenta Joel Serrão alguns textos que são também essenciais para a compreensão do que pensava Fernando Pessoa do regime salazarista.

Observa-se que, em 1928, o escritor publicara Interregno – Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal: o alvo eram as desordens políticas nas ruas e a desordem financeira no governo. Quem o condenará pelo que escreveu e pensavam os portugueses, naquele tempo? Está fora de dúvida que os resultados econômico-financeiros, desde a chegada de António de Oliveira Salazar ao poder, foram bem aceitos. Ele começara a arrumar o que era preciso, mas foi preparando simultaneamente a sua instalação no poder, que perdurou por mais de quatro decênios.

Muito antes de 1935, o autor de Mensagem (que morreu em 30 de novembro deste ano) arrependera-se das boas perspectivas que augurara, mas nada poderia fazer – Salazar era apoiado não somente pela maioria dos militares mas também pelos numerosos civis que, por convicção ou interesse, viram no ditador que despontara a solução para os males nacionais. Em 1935, com o “Interregno-II”, Pessoa admitiu o engano: “Escrevi no princípio de 1928 um folheto com o mesmo título que o presente (…). Dou hoje esse título por não escrito; escrevo este para o substituir”.

Explicou ainda: “Quando escrevi o outro folheto, em fins de 1927, estávamos ainda longe do Estado Novo e da nova Constituição, embora já perto, sem que o soubéssemos, da vinda e primeira fase de Salazar. Havia de fato interregno, isto é, a Ditadura era, propriamente, uma Ditadura de interregno. Com a votação da nova Constituição estávamos já num regime: o Interregno cessou. Nada importaria, ou importa, o julgar mau o Estado Novo. Existe. O Interregno cessou”.

Entretanto, há outros pontos de vista pessoanos que vale a pena relembrar:

1)     “É, a meu ver, um erro de Salazar o filiar o espírito de partido – pelo menos entre nós e nos países latinos – na aprendizagem de arguir e defender que se faz ou faria em certas escolas.”

2)     Doutrina estadonovista: “(…) não me proponho discutir a nova Constituição ou o Estado Corporativo; a ambos aceito, por disciplina; de ambos discordo, porque não concordo.”

3)     O Poeta nacionalista não crê na “admiração” que o salazarismo estava despertando no mundo e salienta: “O prestígio de Salazar não se deriva da sua obra financeira, tanto porque, sendo essa obra uma obra de especialidade, o público não tem competência, nem pretende ter competência, para a compreender. Como porque o acolhimento calorosamente favorável, que essa obra teve, denotava já um prestígio anterior. O prestígio de Salazar nasceu vagamente da sugestão do seu prestígio universitário e particular, mas firmou-se junto do público, logo desde as suas primeiras fases como ministro, e as suas primeiras ações como administrador, por um fenômeno psíquico simples de compreender.”

4)     As Ditaduras Militar e a de Salazar foram comparadas por Fernando Pessoa: “Há razões para supor (…) que dois terços do país estão com a Ditadura Militar. O que não há razão para supor é que os mesmos dois terços do país, ou qualquer coisa que se pareça com esses dois terços, esteja com o Integralismo Lusitano, cujos princípios, aliás estrangeiros, se nos querem impor como soma de ciência social e necessária condição nossa, pelo Manifesto do Governo e o Relatório Salazar.”

Outras considerações do autor de Mensagem poderiam ser aduzidas, a partir dos livros de Teresa Rita Lopes e de Joel Serrão, entre outros, para justificar o seu desacordo com o pretenso nacionalismo do regime fascista português. Mas as passagens transcritas são mais do que suficientes para ilustrar o principal – Fernando Pessoa não tinha nada a ver com o totalitarismo salazarista. E se quisermos concluir temos de recorrer à sua autobiografia de 30-3-1935:

Ideologia política: Considera que o sistema monárquico será o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes votaria, embora com pena, pela República. Conservador de tipo inglês, isto é, liberal dentro do conservadorismo, e absolutamente anti-reacionário.

Texto da Obra: Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo – Ed. Fábrica de Idéias, 2009

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