ENSAIOS PESSOANOS: “O grande equívoco”

Por João Alves das Neves

É com este título que Teresa Rita Lopes abre os 19 textos do Pessoa Inédito, incluindo as 6 cartas ao Presidente da República e 2 poemas, num dos quais (com data de 1932) Fernando Pessoa dizia que Salazar era “um cadáver emotivo, artificialismo organizado pela propaganda”. E três anos mais tarde condenava a “cesarização de um contabilista”, acrescentando: “O Chefe do Governo não é um estadista: é um arrumador”. 

Em outro documento nem o considerava “um financeiro”, além de seguir a linha “dogmática e intolerante” de certos católicos. Exemplificava que, com a chamada revolta da Ilha da Madeira (2-7-1932), Salazar “mudou o rumo da Ditadura”, imitando o golpe de Primo de Rivera e aproximando-se de Mussolini. Aliás, os regimes nazi-fascistas são igualmente comentados: “Mussolini e Hitler agarram-se à absoluta banalidade das suas ideias [e são-no…] de outro modo. Salazar, incontestavelmente mais inteligente do que qualquer um deles, quer ter ideias e é aí que se perde no disparate e na contradição. Também ele só tem ideias banais, mas são banais a um nível mais elevado. Hitler e Mussolini têm ideias banais de homem do povo; Salazar tem ideias banais de homem culto. Acontece-lhe o que os ingleses chamam ‘cair entre dois bancos’: a sua banalidade não toca o povo porque é de origem cultural, repugna às elites, porque é banalidade”.

Teresa Rita Lopes divulga mais as 6 cartas (todas datadas de 1935) ao Presidente da República e na 1ª o Poeta elogia o democrata António José de Almeida pela sua “eloquência”, assim como Sidónio Pais (que foi assassinado por desordeiros políticos), enquanto na carta seguinte proclama que o ditador é “incompetente para o cargo que assumiu”. Na 3ª sublinha que o discurso sobre os prêmios literários “enxovalha todos os escritores portugueses – muitos deles seus superiores intelectuais com a fútil imposição de ‘diretrizes’ que ninguém poderia aceitar por não compreender quais sejam” (…), chamando-lhe “aldeão letrado” e incapaz de governar “uma república aristocrática”.

Acresce que o ditador não passa de “executor de ideias de outrem, visto que as não as tem próprias, de secretário de prestígio alheio. Porque não o pode conquistar” (referência possível ao jornalista e escritor António Ferro, que foi ligado ao movimento modernista e Salazar nomeou Secretário da Propaganda Nacional). E fustiga depois: o “chefe” assumiu a “posição, presentemente mais que régia, da Presidência do Conselho. / Realmente, é um Estado Novo, porque este estado de coisas nunca antes se viu.” Finalmente, na 6ª carta, Pessoa entende que “passou a época da desordem e da má administração; temos boa administração e ordem. E não há nenhum de nós que não tenha saudade da desordem e da má administração.”

O que mais protestar sem liberdade, mas com censura? Para alguns, Oliveira Salazar era indiscutível e, por isso, Fernando Pessoa (por volta de 1933) concluiu ironicamente – “Mais valia publicar um decreto-lei que rezasse assim”:

            “Art.1 A(ntonio) d(e) O(liveira) S(alazar) é Deus.”

            ”Art. 2. Fica revogado tudo em contrário e nomeadamente a Bíblia”

E o Poeta afirma que deste modo ficaria instituído “o autêntico Estado Novo – a Teocracia pessoal” e, por acréscimo, “o sovietismo direitista da U(nião) N(acional).”

Texto da Obra: Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo – Ed. Fábrica de Idéias, 2009

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