ENSAIOS PESSOANOS: FERNANDO PESSOA, SALAZAR E O ESTADO NOVO

Por João Alves das Neves

Durante muitos anos, o nacionalismo do Poeta da Mensagem foi confundido com o “nacionalismo” de António de Oliveira Salazar.

Nada mais errado, de acordo com os textos divulgados por vários estudiosos, com destaque para Joel Serrão, Teresa Rita Lopes e Teresa Sobral Cunha. 

Só agora aprecem num só volume os textos dispersos por livros e revistas, neste Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo. Da autoria do Poeta nacionalista, com introdução e notas explicativas sobre os 5 poemas e 3 dezenas de comentários em prosa. E se alguém tinha dúvidas sobre o anti-salazarismopessoano deverá perdê-las, assim como em torno de outras ideias políticas, tema que será ampliado com o Dicionário de Política.

Com o título de Ensaios Políticos (Ideias para a reforma da Política Portuguesa) (s/d), o escritor “Petrus” (pseudônimo de Pedro Veiga) divulgou num livro de 166 páginas 4 trabalhos que Fernando Pessoa subscrevera em várias publicações, abstraindo, é claro, dos textos políticos que a censura cortaria e que só agora puderam aparecer – “Petrus” foi um pioneiro dos estudos sobre o criador dos heterônimos, ao lado de João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Agostinho da Silva, Jorge de Sena, António Quadros, Teresa Rita Lopes, Joel Serrão, Eduardo Lourenço e outros.

É certo que as ideias políticas de Pessoa somente puderam ser conhecidas com o fim da censura em Portugal, fazendo cair a máscara dos que o aparentavam ao fascismo. No fundo, os poemas da Mensagem tinham tanto a ver com o regime como Os Lusíadas de Camões, obras que eram frequentemente identificadas com o salazarismo – confusão habitual entre os defensores das ditaduras. É claro que Pessoa esteve ausente da solenidade em que lhe atribuíram o “Prêmio Antero de Quental”, instituído pelo governo e foi galardoado pelo “melhor poema”.Havia duas modalidades, a do livro (com 100 páginas, no mínimo) e a do poema, e Mensagem contava não mais de 98!

O véu começou a ser desvendado com a edição, em 1978, do volume DaRepública (1910-1935), apresentado e organizado por Joel Serrão, e do Pessoa Inédito (1993), de Teresa Rita Lopes, e de vários textos revelados por António Quadros e Teresa Sobral Cunha, entre outros. Na verdade, tanto em relação a Pessoa como a tantos escritores é a soma de contribuições que conta.

Foi assim que selecionamos, além dos 5 poemas, mais 5 textos em prosa, divulgados por Joel Serrão, os 15 escolhidos por Teresa Rita Lopes e 1 por Teresa Sobral Cunha, graças aos quais concluiremos que condição nacionalista de Fernando Pessoa nada tinha a ver com Salazar e a Ditadura, que começou por ser militar (1926) e depois fascista, sob a capa do Corporativismo (após 1933). Indiscutivelmente, os documentos ora reunidos definem o pensamento pessoano perante o regime ditatorial e as suas consequências políticas, econômicas, sociais e culturais.

Há pormenores que merecem ser salientados e abrimos com a carta de 1935 (em Pessoa Inédito vêm mais 5 breves cartas de Fernando Pessoa ao mesmo destinatário – o Presidente da República, General Oscar Carmona – mas que não chegaram a ser enviadas). Declarando-se autor dos poemas nacionalistas de Mensagem e do artigo “Associações Secretas” (Diário de Lisboa, 9-2-1935), na condição de “templário”, pondera Pessoa, na 1ª carta, que a Ditadura em Portugal percorreu 3 fases:

1)     “A de simples defesa própria e da expectativa (28-5-1926) até à chegada do Professor Oliveira Salazar ao Ministério das Finanças” (23-4-1928);

2)     Veio depois a fase da consolidação da ditadura “pela ação enérgica, paciente e cuidadosa” de Salazar (“equilíbrio dos orçamentos e por outros efeitos análogos ou similares”);

3)     A fase seguinte “começou por afirmar-se no Integralismo Monárquico disfarçado do Estado Novo” e continuou pelo Estado Corporativo até que o regime se tornou “integralmente integral, isto é, francamente inimigo de duas coisas: da dignidade do Homem e da liberdade do Estado”. Por fim, Salazar impôs diretrizes: “Até aqui a ditadura não tinha tido o impudor de, renegando toda a verdadeira política do espírito acima da política – por intimar quem pensa a que pense pela cabeça do Estado, que a não tem, ou de vir a intimar a quem trabalha a que trabalhe livremente como lhe mandam”.

A seguir, o escritor cataloga Salazar entre os dominicanos, e não de feição jesuítica: “Ele é minucioso, mas não é sutil: tem astúcia, mas não diplomacia; não tendo nem encanto nem maleabilidade, é incapaz de captação direta ou indireta. Se o seu aspecto duro e manhoso lhe valeu, como definição fisionômica, esse epíteto frequente, conviria sugerir aos autores de (…) que a palavra ‘seminarista’ é uma fotografia muito mais exata do ditador português.” E prossegue o retrato psicológico: “Inteligente sem maleabilidade, religioso sem espiritualidade, ascético sem misticismo, este homem é de fato um produto de uma fusão de estreitezas. A alma campestre sórdida do camponês de Santa Comba se alargou em pequenez pela educação do seminário, por todo o inumanismo livresco de Coimbra, pela especialização rígida do seu destino desejado de professor de Finanças. É um materialista católico (há muitos), um ateu nato que respeita a Virgem.”

Salazar é um incapaz, opina o intelectual Fernando Pessoa: “Para governar um país como chefe, falta-lhe, além de qualidades próprias que fazem diretamente, num chefe, a qualidade primordial – a imaginação. Ele sabe talvez prever, ele não sabe imaginar. Ele mesmo mostrou desdém por aquilo a que chamou “os sonhadores nostálgicos do abatimento e da decadência” (discurso de 21-2-1935); Na realidade, “a frase de Salazar, mesmo que tenha esta origem sordidamente instintiva, é ainda mais infeliz do que parece. O Ditador dirigia-se a escritores e a poetas, era a eles que ordenava não sonharem. Ou ele quer que os escritores portugueses escrevam sempre sem pensar ou quer que nas suas obras não figure nada que seja sonho. Só se fará, portanto, em Portugal, poemas ou romances sobre as coisas materiais da vida. Salazar, aqui, revela-se um Zola.”

O Poeta não perdoa o sacrilégio cultural: “Em Salazar há sempre o materialista, o contabilistazinho. Não se pode sonhar porque o sonho não é remunerável. Não se deve sonhar porque nos arriscamos a enganar quando sonhamos diante de uma operação aritmética”. E joga mais uma farpa, interrogando: “E esse Mussolini que Salazar tanto admira, será que a saudade do Império romano não tem nada a ver com o seu ímpeto e a sua bravura?”

Salazar copia as ditaduras, porém à sua maneira, vaidoso que espera os parabéns, isto é, o apoio, mesmo que não seja honesto. Que elogiem o governo! O Poeta não aceita submeter-se: “Como naturalmente é de todo impossível que seja que homem for esteja sempre de acordo com qualquer outro que seja, resulta daí que me devo curvar como escravo integral, louvando por profissão e diariamente, ou que só devo publicar um artigo quando estiver de acordo com a ação do governo, não dizendo nada nos casos contrários. A solução natural ‘é nada publicar’ – ou, como aconteceu no inverno fascista, escrever para a gaveta…”

Desiludido, dirá ao Presidente da República que os discursos ditatoriais “não são maneiras de falar”, pois “o que torna Salazar odioso ao povo é que ele encarna a supressão de toda a liberdade pública – de falar, de escrever, de se reunir”. Os portugueses estavam no beco sem saída: “Em conclusão a Ditadura Portuguesa só se mantém por duas razões – o medo do comunismo e a insubstitubilidade de Salazar. Não são, é certo, aspectos fortes no campo moral, tanto mais que são negativos, mas talvez sejam bastante fortes no campo estritamente material e prático. É ainda o alcoolismo sociológico”, isto é, o eventual sucessor de Salazar “não saberia abolir a censura nem estabelecer as outras liberdades”…

Texto da Obra: Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo – Ed. Fábrica de Idéias, 2009

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4 comentários em “ENSAIOS PESSOANOS: FERNANDO PESSOA, SALAZAR E O ESTADO NOVO”

  1. Edoilce Pessoa Pavan Says:

    Olá, Bom Dia!
    Aqui no Brasil, atribuem muitos poemas como sendo de Pessoa. Sou uma admiradora e fã dele e dos vários poetas que moravam dentro dele! Tem um poema que recebi, e estou em dúvida quanto a autoria. Diz ser de Pessoa,mas não consigo encontrar nenhum traço de sua peculiaridade autoral. Por favor, podem me confirmar a autoria?
    “Quero tudo novo de novo. Quero não sentir medo. Quero me entregar mais, me jogar mais, amar mais.
    Viajar até cansar. Quero sair pelo mundo. Quero fins de semana de praia. Aproveitar os amigos e abraçá-los mais. Quero ver mais filmes e comer mais pipoca, ler mais. Sair mais. Quero um trabalho novo. Quero não me atrasar tanto, nem me preocupar tanto. Quero morar sozinha, quero ter momentos de paz. Quero dançar mais. Comer mais brigadeiro de panela, acordar mais cedo e economizar mais. Sorrir mais, chorar menos e ajudar mais. Pensar mais e pensar menos. Andar mais de bicicleta. Ir mais vezes ao parque. Quero ser feliz, quero sossego, quero outra tatuagem. Quero me olhar mais. Cortar mais os cabelos. Tomar mais sol e mais banho de chuva. Preciso me concentrar mais, delirar mais.
    Não quero esperar mais, quero fazer mais, suar mais, cantar mais e mais. Quero conhecer mais pessoas. Quero olhar para frente e só o necessário para trás. Quero olhar nos olhos do que fez sofrer e sorrir e abraçar, sem mágoa. Quero pedir menos desculpas, sentir menos culpa. Quero mais chão, pouco vão e mais bolinhas de sabão. Quero aceitar menos, indagar mais, ousar mais. Experimentar mais. Quero menos “mas”. Quero não sentir tanta saudade. Quero mais e tudo o mais.
    “E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha”.
    Fernando Pessoa

    Se puderem me responder por e-mail,agradeço muito!
    edo.pessoa@hotmail.com

    • João Alves das Neves Says:

      Cara Edoilce Pessoa Pavan
      Segundo analise de nossos colaboradores esse texto não faz parte da obra do Poeta Fernando Pessoa, existem varias indicações que nos remetem `a negar a autoria do texto ao genial poeta.
      Abraços.
      Revista Lusofonia


    • olá Edoilce!
      A única frase desse texto do Pessoa é esta (a última): “E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha”. Poema – Tabacaria (65º verso) Autor – Álvaro de Campos
      (Heterônimo de Fernando Pessoa)
      Todo o restante, desde o início, é de autor desconhecido.
      Abraços.
      Augusto


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