O “Padre Mattos” não foi heterônimo

Por João Alves das Neves

Entre os 127 heterônimos enumerados por José Paulo Cavalcanti Filho, no livro Fernando Pessoa – uma quase autobiografia (1), pelo menos um existiu humanamente –o “Padre Mattos”, que nasceu no dia 7 de  Janeiro de 1893 na aldeia  de Folques (Arganil, Portugal), onde morreu em 11  de Dezembro de 1916. Seu nome completo: José Lourenço de Matos.

Foi sacerdote e jornalista (publicou artigos em mais de uma dezena de jornais e 7 livros, incluindo O Baluarte de um Vencido (póstumo) e O Paraíso do Cristão (“endereçado especialmente à juventude feminina”). Monárquico por excelência, combateu com vigor os excessos anticatólicos da primeira República, mas era tido como pessoa correcta, como fez António José de Almeida, então ministro da Justiça (devia conhecer bem o Padre Mattos, pois eram ambos da Beira-Serra), e por isso o dirigente republicano mandou escoltar o sacerdote, quando ele foi preso e deportado (!) por suas convicções religiosas, porque os mais agitados ameaçavam agredi-lo.

No livrinho Fernando Pessoa na Beira-Serra (2), dissemos que o Pe. Mattos era muito combativo, mas nem por isso se pode considerar democrática a violência dos seus adversários, que destruíram a pequena tipografia do jornal Manhãs Dominicais (saiu apenas o 1º número…) Com efeito, se a ditadura estadonovista foi inadmissível, as perseguições religiosas durante a Republica foram também imperdoáveis.

Admitimos que, na condição de jornalista, o Padre Mattos foi demasiadamente agressivo nas suas diatribes contra o regime implantado em 5 de Outubro de 1910 – e é sabido que numerosos republicanos discordaram das violências dos contendores, Fernando Pessoa entrou na corrente e atacou-o rudemente, no poema satírico “Origem metaphisica  do Padre Mattos, divulgado por Teresa Rita Lopes no 2º volume (3), cuja fonte não é citada por  José Paulo Cavalcanti, que se limita reproduzir 4 versos do poeta (pág 377),  apontando-o  mais tarde entre os heterônimos (pág. 387). Em resumo   o “Padre Mattos” não foi nenhum dos múltiplos heterônimos pessoanos – era sacerdote e jornalista e teve o   nome verdadeiro de José Lourenço de Mattos. E conheço o seu retrato.

Na sua  notável biografia, esclarece o correcto pesquisador José Blanco: “Poema satírico de Fernando Pessoa contra o Padre José Lourenço de Mattos. In Com. Ling. Port., 16, 2ª. Série, 7/2001, pp. 18-22. {Com. ao  VII Encontro Internacional do Centro de Estudos Fernando Pessoa, realizado em São Paulo em 5/18-20/2001} No poema satírico “Origem metafísica do  Padre Mattos”, FP, talvez irritado com o excessivo reaccionarismo monárquico do Padre José Lourenço de Mattos,  jornalista de “A Palavra”, foi além das marcas: É um texto “malcriadíssimo”.’ (4)

Depois da leitura do poema transcrito por Teresa Rita Lopes, consultamo-la, mas ela não sabia quem era o Pe. Mattos. Continuamos a busca e concluímos que só podia ser o Padre José Lourenço de Mattos, o virulento contestador do regime republicano. E assim chegamos ao artigo da revista Comunidades de Língua Portuguesa (nº16, São Paulo, 2001) que desenvolvemos no livro Fernando Pessoa na Beira-Serra ed. Dinalivro, Lisboa, 2003). Com a devida vênia, só nos falta republicar agora o poema Origem metaphysica do Padre Mattos, de Fernando Pessoa:Bibliografia:

(1)   Editora Record, Rio de Janeiro, 2011,

(2)   Ed. Dinalivro, Lisboa, 2003

(3)   Ed. Estampa, Lisboa, 1990

(4)   Ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 2008

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