“ Amália, o Filme”

Por Raquel Naveira (*)

 Meu sangue português está em festa. Nascida e criada no sul de Mato Grosso, numa casa portuguesa, pelos meus avós, José Dias de Carvalho e Emília, imigrantes de Figueira da Foz, é uma alegria ter aportado aqui em São Paulo, no Clube Português, convidada pelo professor João Alves das Neves, para apresentar este documentário sobre Amália Rodrigues, a Rainha do Fado, a cantora, a atriz, a voz de Portugal.

Logo que cheguei a São Paulo, escrevi o poema “Sangue Português”, cheio de perplexidade, que diz assim:

Fiz jus

Ao meu sangue português,

Este foi o meu fado:

Deixar o passado,

Arremeter-me contra o desconhecido,

Acima da minha pequenez.

Desejei tudo:

Uma nova estrela,

Uma nova sorte,

Atribuí ao fado

O meu cansaço

De alma forte.

Estaria morto,

Absorto em mim mesmo,

Se não tivesse partido;

Velas ao vento

Entre rosas e cruzes,

Viajei em busca do meu ideal,

Bem ou mal,

Não sei quando chegará minha hora,

Minha vez,

Mas sei que fiz jus

Ao meu sangue português.

E também foi aqui que escrevi uma crônica intitulada “Amália Rodrigues: a Fadista” em homenagem a Amália e ao meu avô Carvalhinho, fruto do tesouro de minhas recordações de infância:

“Meu avô português, o Carvalhinho, amava ouvir fados, principalmente os interpretados por Amália Rodrigues, verdadeiro ídolo para ele. Lembro-me das capas de seus discos, a fadista sempre sorridente, lábios vermelhos e xales estampados. O fado, na verdade, se origina do bem brasileiro lundu, música de nossos negros, cantada ao som da viola. Levado para Portugal por D. João VI o lundu mudou de nome, perdeu o ritmo acelerado e se fixou nos tons menores, mais adequados às lamentações e aos melodramas sentimentais, ao som das guitarras repinicadas. Tornou-se manifestação urbana dos bairros populares e operários de Lisboa. Com o advento da Rádio e do disco, as vozes das fadistas Ercília Costa, Ermelinda Vitória, chegam a  um público cada vez mais vasto. O fado saltou das ruas e vielas de Lisboa para as casas de fado como o Retiro da Severa, onde Amália começou sua carreira.

Amália, a lisboeta humilde, foi a renovadora do fado, uma voz singular, uma intérprete com intensidade dramática que afirmava que o que interessa é sentir o fado, porque o fado não se canta, acontece. O fado sente-se, não se compreende, nem se explica.

 Quando Amália esteve no Cassino de Copacabana em 1944, meus avós vieram de Mato Grosso assistir ao espetáculo e voltaram maravilhados com seu fascínio, seu vestido de crepe azul da China. O avô gesticulava: Só faltei ajoelhar aos seus pés, tanta a emoção! Não há melhor embaixadora de Portugal no mundo!

 Os fados preferidos de meu avô marcaram profundamente minha forma de ser, de escrever e de sentir: o doloroso e retumbante “Barco Negro”, de David Mourão-Ferreira:

  De manhã, que medo que me achasses feia

 Acordei, tremendo, deitada n’areia,

Mmas logo os teus olhos disseram que não,

E o sol penetrou no meu coração.

Em outro trecho aquele tom de melancolia das mulheres que veem seu amado partir:

 Eu sei, meu amor,

Que nem chegaste a partir,

Pois tudo, em meu redor,

Me diz que estás sempre comigo.

E nas horas de alegria, espalhava-se pela casa o som da “Casa Portuguesa”:

 Numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa.

 Quatro paredes caiadas,

Um cheirinho de alecrim,

Um cacho de uvas doiradas,

Duas rosas num jardim,

Um São José de azulejo

Sob um sol de primavera,

Uma promessa de beijos,

Dois braços à minha espera…

É uma casa portuguesa, com certeza!

É com certeza, uma casa portuguesa!

Quando Amália Rodrigues morreu, no dia 06 de outubro de 1999, meu avô José já tinha partido. Acompanhei o noticiário em lágrimas, lembrando dele, de quando eu dançava ao som dos fados, segurando as pontas da saia e ele me chamava de “Minha borboleta”. Vi como Lisboa chorou: as flores, os lenços brancos acenando, os sinos das igrejas tocando. Nas ruas, nos carros, nas lojas, por todo lado o fado de Amália. O Fado da Bica, dos Caracóis, da Saudade, do Ciúme, do Silêncio. Ó Flor do Verde Pinho que lavava Portugal, lavava, nas madrugadas de Alfama, Lisboa em Festa, Lisboa das cantigas de amigo, dos fadinhos serranos da Esquina do Pecado. Nunca mais o Tiro Liro Liro. Ai, meu amor, o marinheiro está longe e sou dele e sou tua. Todas as guitarras ficaram tristes. Gaivota. Libertação”.

Vamos então assistir agora ao “Amália: o Filme” do cineasta Carlos Coelho da Silva, argumento de Pedro Marta Santos e João Tordo, realizado pela Valentim de Carvalho Filmes. Amália é encarnada pela atriz Sandra Barata Belo. Um filme que conta uma história de amores e de glória, uma história dramática e exaltada. Um filme que retrata o gênio artístico de uma mulher de sucesso planetário, mas que também conheceu a frieza familiar, as desilusões amorosas e pagou o preço da melancolia do fado. Com vocês, lances secretos e momentos memoráveis em “Amália: o Filme”.

(*) A autora é escritora, professora universitária, Mestre em Comunicação e Letras, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e do PEN Clube, diretora da União Brasileira de Escritores/SP, autora de diversos livros, entre eles, Portão de Ferro (poesias), Literatura e Drogas e outros ensaios e Caminhos de Bicicleta (crônicas).

Apresentação do filme “Amália, O filme” exibido no Clube Português de São Paulo em 27 de Abril de 2011

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