A Pátria Doente

 Por. A. Gomes da Costa

Outro dia, o “Financial Times” publicou um comentário, do jornalista americano Edward Hadas, que mostra o desprestígio e o estado de penúria financeira em que se encontra Portugal. Mesmo a título de ironia, o jornal inglês saiu-se com uma sugestão para aliviar o descalabro que reina em Lisboa: que se inverteram os papéis históricos e que Portugal (antiga metrópole) abandone a União Européia e se deixe anexar pelo Brasil (antiga colônia). A “brincadeira” podia ter um complemento: é que nem uma pequena parcela da dívida soberana portuguesa, considerada pelas agências de risco como muito próxima do “lixo”, interessa ao Ministro da Fazenda, Sr. Guido Mantega, que parece ter ficado preocupado quando a Presidente Dilma Roussef disse em Coimbra que o Brasil estava pronto a ajudar Portugal. E a maneira mais direta dessa ajuda seria a aquisição de títulos da dívida, o que não só aliviaria a pressão dos mercados, como também reduziria o custo que o Brasil está a pagar pelo “carregamento” das reservas cambiais que vem acumulando nos últimos anos. Se ao Ministro Mantega não agradam as Obrigações do Tesouro, por falta do “triple A” das agências de “rating”, imagine-se o desapreço pela cama de mogno de D. Pedro, num dos quartos do Palácio de Queluz, ou as cinzas de Pedro Álvares Cabral, guardadas com as de sua mulher na igreja de Santarém…

A verdade é que Portugal atravessa um dos períodos mais dramáticos desde a queda do “antigo regime”. Atravessou o período da descolonização e da reforma das instituições; foi superando o “bota-abaixo” do “gonçalvismo”, quando o país parecia um “manicômio em autogestão”; valeu-se do ouro e das reservas deixados por Salazar para sobreviver às crises dos anos 70 – e, com a entrada na União Européia e o acesso às verbas comunitárias, deu um salto para o desenvolvimento, modernizou as infra-estruturas e criou condições de vida muito melhores para a população.

Entretanto, veio a crise de 2008 e, pior do que isso, os portugueses suportaram governos desastrosos que juntaram a incompetência à arrogância, e que conduziram o País a uma situação financeira insustentável: praticamente sem crescimento econômico na última década, com uma taxa de desemprego de cerca de 11%, carregado de dívidas, tanto por parte do governo como das famílias, e entregue a uma classe política do piorio, que não inspira confiança, nem dentro, nem fora do País.

É constrangedor olhar para o Portugal de hoje: o governo demitese, porque os partidos da oposição não quiseram aprovar mais um plano de contingências; o Presidente da República dissolve a Assembléia e convoca eleições legislativas; os socialistas atiram a culpa dos embaraços sobre a oposição e esta pergunta: Quem fez a gastança descontrolada e pôs Portugal de cócoras? Quem teve o cinismo de lançar projetos megalômanos, como o do TGV ou o de um novo aeroporto, com o País à beira da bancarrota? Quem, às vésperas das últimas eleições, aumentou o salário do funcionalismo para ganhar votos e agora cortou esses salários? Quem vem enganando o povo com a retórica populista e cínica dos coveiros da Pátria?

Mesmo sem saber como o país vai sobreviver nos próximos dois meses (ou seja, até às eleições fixadas para 5 de junho) pois, de um lado, há a recusa do governo socialista em pedir socorro ao FMI ou a Europa e, do outro, a pressão dos credores (para renovar empréstimos já estão exigindo juros de quase 10% ao ano) os portugueses defrontam-se agora com um dilema que ultrapassa as ideologias e as diretrizes dos partidos, as querelas e os vícios do Terreiro do Paço, as cambalhotas do governo e as resistências da esquerda palradora, para decidirem, através do voto, se querem um Portugal desmoralizado e entregue aos demagogos e aos mentirosos da praça, ou se vão optar pela escolha de políticos empenhados em manter os valores e as qualidades de um povo, um País sério e consciente de suas responsabilidades, um País de trabalho e de progresso, de esperança e de bem-estar?

Esta é a hora para os portugueses se unirem, se quiserem salvar a Nação, ou para se dividirem mais ainda e enterrarem o futuro embrulhado na sarapilheira dos interesses partidários.

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