A VIAGEM DE AUTOCARRO

Por Isabel Gouveia

Fui confrontada com uma situação embaraçosa que teve o condão de reacender a minha vontade de “cronicar” (passe o desuso do termo, já abolido pelo “Dicionário da Língua Portuguesa”, da Academia das Ciências de Lisboa). Uma senhora minha conhecida, mais ou menos da minha idade, engalanada dos pés à cabeça, submersa em adornos dourados e prateados, primando pelo oposto da sobriedade usual no seu grupo etário (não se pense que considero isso como negativo, pois, em princípio, poderia demonstrar juventude de espírito), resolveu, a meio de uma viagem de autocarro, sentar-se num lugar vazio, a meu lado. Palavra puxa palavra, e ela foi desbobinando a sua árvore genealógica e a sua história de vida, recheada de eventos sociais importantes, mas também de chás e canastas, na companhia de gente nobre, sobretudo da gente mais nobre da “cidade invicta” do Porto. É claro que, ao falar de gente nobre, não utilizo o adjectivo na sua verdadeira acepção, aplicável também ao mais humilde pedinte. Refiro-me a uma roupagem que enfeita os representantes de uma classe social que dantes se opunha ao povo e rivalizava com o clero…

Enquanto a minha companheira de viagem quase monologou, tudo correu da melhor forma. Ouvinte à força, escrava escolhida para emprestar os ouvidos a uma mulher provavelmente frustrada por alguns acidentes de percurso na sua vida, sofria em silêncio o meu azar. A verdadeira história começou na altura em que, contra os meus hábitos, porque já estava com a cabeça em água, como se costuma dizer, ao fazer-lhe uma pergunta (por certo “chocha”, no estilo daquela conversa) e não me recordando do nome dela, cometi o delito de a tratar por você. Acto contínuo, aqueles olhos murchos, sombreados de azul (azulão), por baixo e por cima, fitaram-me com desgosto, e a conversa mudou de rumo: “Que país este, em que a educação do povo falhou redondamente?! Então, não é que em todo o lado se aplica o termo você? É nos supermercados, é nas lojas de roupas, é nos autocarros, é nos cafés, etc., etc., etc. Tudo se agravou com a invasão de imigrantes brasileiros. Urge civilizar esta nação!” E ela continuou: “Eu dou o meu contributo. Sempre que me tratam por você, explico que sou uma ‘senhora’, e que esse termo é impróprio.”

Meti a viola no saco, envergonhada e desgostosa comigo própria. Como é que me tinha passado pela cabeça aquela cachoeira de malcriadez, tanto mais que não era meu hábito dar vazão a correntes dessas, mesmo no contacto com as mais humildes pessoas, que até ficariam felizes se eu as tratasse com tal familiaridade!… A verborreia educativa da minha companheira de viagem tinha por fito repreender-me e colocar-me no meu lugar. Em princípio, sendo ambas praticamente da mesma idade e tendo eu prestado à sociedade um serviço que julgo positivo, tanto no domínio profissional e intelectual, como no domínio privado, pois contribuí para o aumento da população, não me pareceu muito despropositada a forma como a tratei. Mas então porque é que a palavra você ali se encontrava desajustada? Simplesmente porque aquela senhora se julgava pertencente à alta nobreza, amiga de barões (sem sentido pejorativo), condes e duques. Naquele momento, o meu cérebro não conseguiu abrir uma gaveta onde em tempos tinha guardado a etimologia do termo em questão. Você, Vossemecê, Vossa Mercê, era o que estava arrumadinho em tal gaveta, para ser aberta quando tivesse oportunidade. Mas esta só me surgiu quando regressei da viagem e fui rebuscar, na minha biblioteca, um antigo tratado de ortografia, de Rebelo Gonçalves, em que o autor, referindo-se ao uso da maiúscula inicial nas locuções pronominais reduzidas, diz o seguinte com referência às atrás mencionadas:

 “ […] Como é evidente, não entram neste número várias reduções da locução Vossa Mercê, tais como você, vacê, etc (v. Vocabulário da A.C.L., s. v. vossemecê), porque nelas está perdido o valor axionímico e, consequentemente, não há razão para a maiúscula inicial, mas para a minúscula.”[1]

É claro que a palavra você não tem valor axionímico, mas não se deve ignorar a sua génese, que reduz o acinte que lhe é atribuído por alguma gente. Na verdade, não é curial que num supermercado, num autocarro, num escritório, num consultório médico, etc., etc., etc., se trate por você uma pessoa idosa, ou de reconhecido mérito social ou intelectual, ou mesmo um desconhecido com razoável apresentação, porque, tratando-se de um pedinte, o caso muda de figura… Este até poderá desconfiar de um tratamento mais respeitoso… Mas, santo Deus, não ter o direito de tratar por você uma pessoa conhecida, do mesmo nível etário, que nunca ocupou um cargo público nem realizou qualquer obra que lhe dê o direito à diferenciação, e isto apenas porque usa um “pomposo”apelido de família, é coisa que, em vez de engrandecer, só pode diminuir a nação (termo muito do agrado da minha interlocutora). Não esqueçamos que no nosso país, nos últimos tempos, as classes sociais começaram a extremar-se a olhos vistos.

O incidente ocorrido naquele autocarro fez-me recordar outro caso não menos caricato, em que me senti envolvida, de braços atados e amordaçada, sem poder esbracejar e gritar a minha revolta contra o preconceito, o “ditador”que mina uma sociedade quando esta não consegue distingui-lo daquilo que se chama boa educação. Um distinto professor universitário, que dirigia uma revista jurídica, escreveu-me a solicitar um artigo que versasse matéria da minha especialidade. Eu já conhecia a dita Revista, mas ignorava a personalidade do director, e procurei informar-me. Maldosamente, ou não (há quem goste de se divertir com estas coisas), informaram-me de que ele era uma pessoa muito moderna, anti-convencional, e que não me atrevesse a tratá-lo com muita cerimónia… Dito e feito. Correspondi logo ao convite e encetei e mantive com ele alguma correspondência durante algum tempo. Procurava furtar-me ao tratamento por Vª Ex.ª, que, segundo o meu conselheiro supostamente brincalhão, não era um tratamento do agrado daquele eminente professor. Mas não é que um dia, com grande espanto meu, recebi um duplo cartão em que esse senhor, dirigindo-se à minha pessoa, empregou o Vª Ex.ª dúzias de vezes… Senti-me como uma colegial a quem o professor mandasse escrever, e reescrever, uma palavra errada vezes sem conta, até à exaustão, para que conseguisse aprendê-la. Comi e calei-me, e ao responder tratei-o com toda a reverência que tanto agrada ao português supostamente importante. Aquele indivíduo, que estava em dívida para comigo, pois me tinha solicitado um trabalho gratuito para a sua Revista, aquele Exm.º Senhor Prof. Doutor (doutor por extenso, nada de abreviaturas) passou, nas minhas cartas, a ser profusamente tratado por Vª Ex.ª. Eu, para ele, com mais ou menos “excelência”, era simplesmente a Sr.ª Dr.ª (que só se escrevia com letra maiúscula por força das regras gramaticais vigentes). A distância estava reposta. Ele, no topo, no cimo do trono, e eu a beijar-lhe os pés, depois de o ter servido numa bandeja.

(1) GONÇALVES (Rebelo), Tratado de Ortografia, “ATLÂNTIDA-Livraria Editora”, Coimbra (1947), p.309.

Anúncios
Explore posts in the same categories: Poemas & Poesias

2 comentários em “A VIAGEM DE AUTOCARRO”


  1. De:Silvino Potêncio,

    A palavra “você”, ou “voismecê”, ou “vossemecê” ou “vossamercê”… ou isto ou aquilo, teve o meu primeiro embate na prova do Segundo Ano dos Liceus em Bragança no início dos anos 60 (Se senta … não fica em pé!… claro)- e até hoje eu continuo a usar aquela que me parece mais adequada ao meu tratamento com personagens dos meus escritos, dos meus poemas, dos meus acrônimos, dos sinónimos, homônimos e sobretudo do léxico que me vem da origem onde economizar nas palavras é um jeito de falar muito sem abrir a boca!
    Lidar com gente ignorante ou mal humorada é uma arte e é da nossa obrigação trazer essas “ovelhas” tresmalhadas ao rebanho DA BOA CONVIVÊNCIA entre gente civilizada ou então… continuar a aceitar a expressão telúrica: vocé p’ra mim é um burro CARREGADO DE LIVROS… Um eterno estudante da Lingua de todos nós!
    Abraço
    Silvino Potencio – Emigrante Transmontano

  2. Maria Célia Says:

    O trecho final da crônica exemplifica o que vivi recentemente quando,diante da possibilidade de escolher meu nome num escrito, manifestei meu desejo de ter o nome MARIA incluído. Sua resposta veio retumbante: disse-me ter excluído o nome MARIA por indicar um formalismo excessivo, que era comum que pessoas preferissem somente o segundo nome, que devemos evitar formalismos excessivos e blá blá blá. Francamente, pensei se não era demasiado exagero meu querer o primeiro nome expresso. As palavras finais de seu email ecoavam ainda em minha mente (…”procuramos evitar formalismos, títulos e academicismos”…) quando vi encerrando o email seu nome em uma linha (de fato, abreviado) e quatro ou cinco linhas de títulos e cargos… Ãh: “Faça o que digo e não o que faço” é o resumo.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: