O Futuro da Cultura Luso-Brasileira

Por Antonio Abreu Freire

Vai fazer 70 anos que um intelectual brasileiro tomou a iniciativa de reflectir sobre uma realidade que nesse tempo ainda não tinha comentadores encartados nos arraiais da cultura não oficial. A ideia foi do grande mestre da antropologia cultural, o pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987), apresentada no Gabinete Português de Leitura de Pernambuco a 2 de Junho de 1940, numa palestra intitulada Uma Cultura Ameaçada: A Luso-Brasileira e desencadeou uma vaga de seguidores que exploraram durante anos o tema do futuro da cultura luso-brasileira. O texto foi incluído na segunda edição do livro O Mundo que o Português Criou (Lisboa, Livros do Brasil, s.d.) e reeditado em 1980 pelo Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, com prefácio do autor e vários anexos com comentários de Álvaro Lins, Manuel Anselmo, José Lins do Rego, Sérgio Buarque de Holanda e Edson Nery da Fonseca.

A República Portuguesa, na sua versão Estado Novo, festejava então, em 1940, os 800 anos da nacionalidade portuguesa e os 300 anos da Restauração da monarquia, enaltecendo as diferenças que o povo português preservava orgulhosamente em relação ao resto do mundo, aplaudindo a autonomia e a especificidade do idioma e das culturas de língua portuguesa: uma questão de identidade que o regime evidenciava, festejando sem rancor antiquíssimos sucessos monárquicos. Tinha rebentado a segunda guerra mundial, provocada pela agressividade de países que apoiavam as suas ambições na idéia da superioridade genética de raças que pretendiam, com as suas outras virtudes diferenciadas, dominar a história do mundo, criando uma nova ordem política e uma nova civilização. O mundo que falava Português pelos quatro continentes rondava então os 80 milhões de habitantes, dos quais cerca de 65% eram analfabetos; havia no Brasil e em Portugal movimentos culturais e políticos de apoio às idéias expansionistas da Alemanha, Itália e Japão, mas o mundo de língua portuguesa não alimentava tão elevadas ambições nem pretendia impor ao mundo os seus parâmetros sociais e econômicos, muito menos uma hegemonia política. Portugal pretendia apenas ver reconhecido o seu domínio sobre as colônias africanas, domínio contestado pela Alemanha e cobiçado pela Inglaterra; o Brasil do período ditatorial de Getúlio Vargas, que aderira ao modernismo da década de 20, conhecia um período de progresso econômico sem precedentes e sonhava entrar na era da modernidade.

Passados 70 anos, Portugal está prestes a festejar 100 anos de República e os desafios são outros nesta nova era da globalização; são mais de 230 milhões as criaturas que se exprimem em português por quatro continentes e o domínio cultural é agora esmagadoramente brasileiro. Cerca de 90 milhões destes seres humanos que falam português e ocupam espaços estratégicos em três continentes e alguns enclaves em outro, vivem numa cidadania precária por iliteracia, ou seja: 40% dos humanos adultos que falam português no mundo são totalmente analfabetos. Daqui por 40 anos poderemos ser 500 milhões pelo mundo a falar português, mas as forças produtivas e políticas terão mudado substancialmente, dada a emergência dos países africanos de língua portuguesa que contarão com 100 milhões de habitantes e o grande desenvolvimento econômico e social do Brasil, uma das maiores e mais promissoras economias do mundo no século XXI.

É mais que oportuno colocarmos de novo a questão do futuro da cultura luso-brasileira, numa encruzilhada da história dos povos, quando se reconsideram e reavaliam valores culturais, sistemas financeiros, modelos de produtividade, projectos políticos e sociais, quando se reorganizam as igrejas e se reformulam definições da identidade e da cidadania, enfim quando na história das civilizações se chegou a um ponto de encontro onde a incerteza domina todos os sentimentos e todos os raciocínios lógicos e matemáticos. O grande desafio deste início de século é o da gestão das incertezas.

A questão que colocava Gilberto Freyre em 1940 era a da definição da identidade: que gentes são estas que contam a sua história e projectam os seus desejos em língua portuguesa, donde vêm e para onde vão. O guru de Apipucos entusiasmou-se com o convite do Estado Novo português para liderar uma investigação e propagar uma ideologia que resultou na criação de uma doutrina de carácter supra-nacional e original, o luso-tropicalismo. Num tempo de ideologias fascistas e integralistas, o criador da sociologia e da antropologia brasileira modernas encaminhou o debate para o campo de uma identidade baseada na estrutura e no poder da língua como factor de reconhecimento do outro como parceiro de vida, de desejos e de produção de bens, considerando as diferenças genéticas e religiosas como um factor positivo de inclusão e de construção de uma comunidade global. A miscigenação e o sincretismo eram mostrados ao mundo inteiro como um factor positivo na criação de um mundo novo, obra de um povo expansionista por vocação, que encontrava a sua identidade na assimilação e superação das diferenças raciais, linguísticas, culturais, religiosas e até socioeconômicas. Era certamente uma visão romântica da realidade, mas não deixava de ser também uma reflexão poderosa e muito racional (não tivesse ela o selo do idealismo de Hegel e de Holderlin, reminiscências da famosa Escola de Direito do Recife, dominada pelo germanismo de Tobias Barreto e de Sílvio Romero), que influenciou profundamente os intelectuais brasileiros das décadas de 50 a 70. A guerra resolveu, pela força das armas, a sorte e o destino dos regimes fascistas e permitiu a emergência de outras ideologias nacionalistas que pretendiam evidenciar valores que não fossem dominantes nem exclusivos de uma raça, como os valores de classe e o das novas ideologias populares.

No século XVII o padre António Vieira, num momento particularmente difícil para a soberania do reino de Portugal e das suas conquistas, definiu à maneira do seu tempo uma identidade baseada nas virtudes ancestrais dos portugueses para desenhar o projecto de um Quinto Império onde se reuniriam todas as raças e todos os projectos dos homens, naquilo que seria o reino de Cristo Consumado na terra. Seria uma era de riqueza e prosperidade, uma Feira Universal onde se encontrariam e se distribuiriam as produções dos homens, das quais ninguém seria excluído. Nesse Império teria lugar uma nova identidade, a de homens livres e reencontrados depois de perdidos, com o advento de uma nova era de prosperidade, regida e apregoada em português. O discurso de Vieira era patriótico e profético; ele acreditava que a história de Portugal e de todos aqueles que faziam parte das conquistas do reino estava anunciada nos textos dos profetas e que os portugueses tinham a responsabilidade e o dever de realizar tais profecias. Não era isso que ele enxergava na política do reino, o que muito o amargurava. Mesmo se a realidade parecia contradizer os seus projectos e os desígnios dos profetas, mesmo se os seus colegas de religião não enxergavam o alcance das suas idéias, o jesuíta nunca desistiu, nunca abdicou da sua postura de profeta do Quinto Império, deixando em herança para a posteridade dos seus leitores a esperança e a coragem como fundamentos da identidade dos povos de língua portuguesa.

Neste nosso tempo de incerteza e de fragilidade, é necessária uma vasta reflexão sobre o futuro das culturas que se exprimem no idioma português, suficientemente abrangente e lúcida para considerar os principais factores que contribuem para a mudança que desafia a nossa imaginação. É necessário criar pontos de encontro de todos aqueles que se interessam pelo futuro de uma história comum a muitas nações, cujo factor de união é a língua e cuja referência mais significativa neste momento é o potencial criativo do Brasil e de Portugal, dois países que têm o ónus e o privilégio de liderar a caminhada para uma identidade comum. Não existem mais, nestes dois países líderes, ideologias nacionalistas, nem de classe; também não existe competição por qualquer forma de liderança política sobre os demais. O futuro dos países mais evoluídos, em maior crescimento e protegidos por alianças e uniões económicas, não deixa de estar rodeado de incertezas; o futuro dos países mais vulneráveis e com uma história recente de atropelos e de indefinições, nos limites do colapso, sugere a tragédia. Neste momento, a grande maioria dos cidadãos de seis dos oito países que se identificam pela língua portuguesa, vivem na insegurança e no desespero, abaixo do nível da pobreza. Portugal e Brasil ainda não são modelos de um progresso sustentado e equilibrado, não assumiram ainda uma posição de relevo nos sectores mais críticos do equilíbrio mundial, mas têm o dever e a responsabilidade de liderar uma acção de tomada de consciência e de criação de auto-estima, fabricando as alfaias e os mecanismos para edificar os perfis éticos e produtivos adaptados aos novos desafios do século, para além das fronteiras raciais e geográficas.

Portugal conta ainda com 2 milhões de analfabetos adultos (entre primários e funcionais), ou seja 20% da sua população; o Brasil conta com 40% da sua população sofrendo do mesmo mal, ou sejam 80 milhões de habitantes (cerca de 35 milhões de analfabetos primários e 45 milhões de analfabetos funcionais): os países africanos de língua portuguesa, com excepção de Cabo Verde, incluindo Timor leste, ultrapassam os 70% de analfabetos primários e funcionais, ou sejam 30 milhões de seres humanos. Isto significa que num universo de 230 milhões de habitantes, 110 milhões, quase metade, estão ou excluídos da cidadania ou partilham apenas uma cidadania precária. Com esta realidade não é possível imaginar que os povos de língua portuguesa se aproximem dos outros países que lideram a história mundial.

O continente africano é o mais vulnerável. Em 2050, quando os países africanos de língua portuguesa totalizarem cerca de 100 milhões de habitantes, metade da população sofrerá as consequências das doenças que neste momento estão sem controle, como a sida e a malária e esses cidadãos não estarão aptos para uma produtividade que garanta a sua sobrevivência. O regime político que vigora neste momento não garante minimamente os valores éticos que regem as democracias: reina a corrupção, o enriquecimento desmedido dos responsáveis pela “governação”, a exploração desenfreada dos desprotegidos pelos privilegiados, a injustiça e a exclusão. As cidades crescem num ambiente caótico e desordenado, num cenário de confusão e violência. As riquezas naturais são sistematicamente esbanjadas, com a conivência dos parceiros externos que fecham os olhos às injustiças mais flagrantes e aos mais evidentes atropelos à ética.

Portugal, a matriz histórica da língua, terá em 2050 a mesma população que tem hoje; a média etária da população terá aumentado, o número dos trabalhadores produtivos terá diminuído. O clima político que se vive neste momento, resultado de 35 anos de confusão e desperdício, terá certamente mudado radicalmente, pela força emergente de novas mentes esclarecidas com um novo perfil ético e produtivo, que não tardarão a impor-se à confusão e à mediocridade generalizadas que reinam entre a actual classe política. Esta é uma perspectiva algo optimista, mas ela é real e fundamenta-se nos valores de uma juventude que aguarda o momento oportuno para se manifestar e impor. O futuro da Europa, de cuja protecção Portugal beneficia com pouco mérito, é incerto e confuso, um projecto em construção que garante aos cidadãos comunitários uma liberdade de circulação e uma igualdade de direitos, mas apenas por contrato a termo, porque a Europa ainda não tem constituição nem identidade. O continente africano, que hoje tem a mesma população que a União Europeia, cerca de 435 milhões de habitantes, terá em 2050 acima de 1.500 milhões de habitantes, quase 4 vezes mais. Apenas os países do norte de África, a norte do Sahara, beneficiarão de um desenvolvimento econômico capaz de os manter parceiros da Europa e dos outros países desenvolvidos do mundo. O resto do continente africano será totalmente dependente da ajuda externa e o passado colonizador da Europa em África confere aos europeus uma responsabilidade moral pelo colapso da África sub-sahariana. Se hoje os africanos desesperados tentam invadir a Europa atravessando em frágeis embarcações o pequeno pedaço de mar que os separa da felicidade, em 2050 cada casal europeu terá em redor da sua casa 8 africanos a espreitar pelas portas, janelas e frestas, procurando buraco por onde entrar.

O Brasil é hoje uma das economias mais promissoras do mundo e um dos países mais ricos em recursos naturais. É um dos poucos países do mundo que pode consumir tudo o que produz e produzir tudo o que necessita para consumir e ainda sobrará muita produção e muito espaço disponível quando a população duplicar. Com um investimento sustentado em educação das massas o Brasil poderá tornar-se, nos próximos 40 anos, uma das maiores potências mundiais. Terá que resolver de maneira contundente e algo radical grandes problemas internos, que desafiam a imaginação, como sejam um novo ordenamento urbano das grandes cidades, cujas periferias, pelo seu crescimento desordenado e selvagem, se tornaram inaptas para a vida humana – isso significa modificar o habitat urbano de mais de 60 milhões de habitantes; terá que planificar e proteger a ocupação do espaço agrícola e florestal, procurar e desenvolver novas fontes energéticas, criar mecanismos de integração social das populações menos produtivas. Nos últimos 50 anos o Brasil foi o país do mundo que mais investiu em educação. Entre 1960 e os nossos dias a população brasileira triplicou e o número de analfabetos adultos primários é hoje aproximadamente o mesmo, numericamente, de há 50 anos: uns 35 milhões. Nenhum país do mundo, em condições de crescimento semelhantes ao Brasil, nem em melhores condições, conseguiu tal proeza.

Com todos os atropelos ao bom senso que nos nossos dias afectam a imagem do país, como a violência nas grandes cidades, a distância que separa os privilegiados dos carenciados, o desperdício das riquezas agrícolas e mineiras, o povo brasileiro é hoje, aos olhos do mundo, uma sociedade credível, considerada capaz de resolver por ela mesma os seus problemas internos, enfrentar todos os desafios e ultrapassar todos os obstáculos, criando os seus próprios meios para atingir os seus objectivos.

No panorama das culturas que no mundo se expressam em língua portuguesa, o Brasil é o país que alcançou o estatuto de liderança incontestável no processo de transformação que se anuncia para o século XXI. Esta liderança começa pela educação das massas, pela formação de cidadãos com um novo perfil ético e produtivo, pela transformação dos espaços urbanos degradados, pelo ordenamento do território, pelo equilíbrio ecológico, pela criação de condições para o crescimento controlado de uma população sadia, o que supõe uma forte componente de educação para a saúde. As desigualdades criadas e mantidas ao longo de décadas e até séculos, terão que ser resolvidas através de programas radicais e gravosos para uma parte da população que até agora viveu do outro lado do estigma da pobreza e da exclusão.

Portugal desperdiçou os últimos 50 anos da sua história com 15 anos de uma guerra colonial absurda e com 35 anos de desperdícios provocados por escolhas políticas e sociais disparatadas. Entre 1958 e 1978 mais de 2 milhões de portugueses, a mão-de-obra mais produtiva do país, emigrou para outros países da Europa, onde contribuiu para o enriquecimento de outras comunidades. Desde o final do século XIX e nos primeiros 30 anos do século XX, outros tantos portugueses tinham procurado fortuna no continente americano, o destino da grande maioria dos que apostavam no novo mundo para encontrar uma nova razão de viver. A República, em 1910 e a Revolução dos militares em 1974 surgiram como remédios a crises socioeconômicas e foram novidades políticas recebidas com euforia e satisfação, mas nem uma nem outra cumpriram os ideais que apregoavam. Depois do 25 de Abril aumentou-se o acesso à educação, mas diminuiu-se drasticamente a qualidade da mesma; o país equipou-se com infra-estruturas de transporte, comunicações e serviços, graças à ajuda da Comunidade, mas pelas auto-estradas da nossa vaidade circulam analfabetos na contra-mão, a quantidade de aparelhos telefônicos fixos e celulares, uma das maiores do mundo em percentagem de habitantes, não favorece a produtividade e os serviços prestados à população são os piores de toda a Europa. Portugal vai festejar no próximo ano 100 anos de República, sendo o país europeu com maiores discrepâncias entre ricos e pobres. Dos 10 milhões de portugueses, 2 milhões vivem abaixo do limiar da pobreza e não tem solução à vista para remediar a situação. Situado na cauda da Europa, Portugal não é apenas o país mais pobre da Comunidade, é também aquele que menos cresce e o que menos perspectivas tem de poder desenvolver-se, sendo o que possui o mais baixo nível de educação das massas e consequentemente o de menor rendimento produtivo. Neste momento, o mundo que fala português não pode contar com Portugal para defender os valores ancestrais de uma comunidade de povos que se formou ao longo de cinco séculos de história. No ano em que festejamos o centenário da República, temos que assumir na realidade 60 anos de ditaduras, 15 anos de guerras civis e 25 anos de trapalhadas. Os ideais republicanos até agora têm ficado adiados. O que podemos verdadeiramente comemorar são os rosários de ideais adiados.

Qual poderá ser o papel de Portugal, neste momento de crise e de indefinições, na afirmação do poder da língua portuguesa pelo mundo, quando o crescimento da população que fala português é “imparável” e a liderança do Brasil no processo de desenvolvimento econômico e no poder de criatividade é incontestável? Como pode um país em vias de envelhecimento, periférico na sua área de intervenção sócio-política e dependente das iniciativas dos parceiros de comunidade no que respeita ao seu progresso sócio-económico, colaborar na expansão cultural do fenómeno imparável que esse mesmo país criou quando se lançou pelos oceanos do mundo à conquista de terras e de povos, já lá vão mais de 500 anos?

Os portugueses criaram esta terceira maior língua comercial do mundo e teceram o enredo das culturas que a adoptaram e desenvolveram como instrumento de comunicação e de criatividade. Foram as naus da Índia, as do comércio das especiarias e das pedras preciosas que fizeram com que os portugueses sonhassem com um império, idéia que saiu da mente irrequieta de Afonso de Albuquerque em 1510; mas foi do trabalho humilde dos lavradores que nasceu o verdadeiro império, dos que plantaram cana de açúcar no Brasil, que criaram currais de gado e dos que depois caminharam pelos sertões delimitando fronteiras, dos bandeirantes e dos sertanistas que cavaram minas à procura de ouro, diamantes e pedras. Quando pelos anos de 1659 o padre António Vieira sonhava com os alicerces do Vº Império, já a Índia era uma saudade. Foram precisos 160 anos para pacificar e unificar a colônia brasileira, que optava pela sua independência outros tantos anos depois. Duzentos anos depois das naus da Índia, Portugal recolhia os benefícios do ouro do Brasil, o que não enriqueceu o povo nem criou um Império. Se ainda fosse vivo, Vieira teria pregado outro sermão do mesmo teor do da segunda oitava da Páscoa de 1656, pregado na igreja matriz do Pará, quando lembrava, mais decepcionado e infeliz do que os sertanistas que tinham ido ao rio dos Pacajás, que a verdadeira riqueza não era a das minas, mas a que estava ao decima de terra, a dos seres humanos; era com os homens e a sua imaginação que se iria construir o Vº Império, não com o ouro e as pedras das minas. Os missionários seguiram as naus do comércio, que serviu de chamariz para propagar pelo mundo a fé cristã e as virtudes ancestrais dos portugueses, aquelas sobre as quais se poderia alicerçar o império do futuro, o reino de Cristo consumado, a feira universal, um mundo novo feito de riqueza e de felicidade, de partilha e de liberdade.

A feira universal, profetizada por Vieira em 1674, existe: é o mundo da globalização de que tomámos consciência três séculos mais tarde, nos anos 80 do século passado. É um mundo feito de riqueza, ainda que só alguns possam até agora beneficiar dela; é um mundo de partilha, já que o comércio livre não exclui ninguém da praça, ainda que só alguns encontrem o caminho da grande feira. A primeira condição para que a língua portuguesa se afirme como o instrumento de comunicação de 500 milhões de pessoas é a sua unificação ortográfica e nesse ponto a adesão de Portugal ao acordo ortográfico e a sua realização prática é um passo fundamental para a afirmação deste poder. As últimas tentativas passadas não tiveram sucesso por falta de vontade política; neste momento, ou se concretiza o acordo ou enveredamos irremediavelmente pela opção de duas ou mais línguas de raiz portuguesa.

Cresce actualmente, a um ritmo assustador, a opção política de uma união ibérica, como solução para a pobreza e a incapacidade de Portugal em acompanhar o ritmo de crescimento econômico do resto da Europa. A solução apresentada é enganadora, pois integrado numa federação de autonomias ibéricas, se o povo continuar com o mesmo nível de instrução e com a mesma capacidade produtiva, continuará tão distante do ritmo europeu quanto antes. Com a adesão de Portugal a uma federação de autonomias ibéricas, todas as regiões autônomas de Espanha ganhariam mais autonomia e por isso mesmo os partidários da idéia recebem o apoio de todas as comunidades espanholas. Mas Portugal apenas teria a perder na sua autonomia, em troca de um nível repentinamente mais elevado de condições de vida: melhores salários, melhor segurança social, maior apoio aos carenciados. Porém, o caminho para o progresso passa pela educação, pelo esforço do aperfeiçoamento pessoal e colectivo, pela criação de um perfil ético e produtivo adequado aos tempos modernos, esforço que os portugueses não fizeram nos últimos 35 anos. Antes do 25 de Abril desculpavam-se pelos vexames da ditadura, mas desde então não têm mais desculpas. Os portugueses têm o que merecem, e não podem deitar culpas a ninguém. Não será com a união ibérica, lembrando que essa foi por várias vezes na história uma opção procurada, inclusive pelo próprio padre António Vieira em 1650, que Portugal entrará na era da felicidade. Um acordo linguístico galaico-português, como propõem os adversários do acordo ortográfico, não faria da língua portuguesa um idioma mais poderoso na Comunidade Européia nem traria qualquer benefício cultural para os portugueses. Mas a aplicação prática do acordo, através da imprensa escrita, das editoras e dos programas escolares, contribuiria de imediato para o fortalecimento da língua à escala mundial. Como primeiro responsável pela língua a um plano histórico, o exemplo de Portugal só peca pelo atraso e as hesitações apenas traduzem a incapacidade de enfrentar a realidade: um país periférico à sua própria história.

São cada vez mais numerosos os jovens portugueses formados nas universidades européias que escolhem como opção ir trabalhar para outros países de língua portuguesa. Uma nova geração de emigrantes portugueses procura no Brasil e em África novos espaços para se realizarem, alguns deles ao serviço de empresas tecnologicamente avançadas, outros amparados por ONG’s que dedicam aos países africanos de língua portuguesa uma parte considerável dos seus recursos. A acção destas ONG’s em África está a crescer a um ritmo muito grande, gerindo recursos nos diversos sectores da educação e da assistência social com uma eficácia muito superior à dos recursos dos governos. Dados da ONU revelam que o crescimento das aplicações dos recursos das ONG’s na África subsaariana é superior a 15% ao ano, e que dentro de 10 anos estes recursos serão superiores aos dos governos. Este é um espaço privilegiado para a intervenção de Portugal e do Brasil em África, nos sectores delicados e estratégicos da educação e da saúde; os dois países têm uma ligação muito especial a África, uma ligação histórica e genética. Promovendo a educação e a saúde em África, Portugal e Brasil estão a promover o seu próprio desenvolvimento, fortalecendo os laços que já os ligam genética e culturalmente. É necessário que os africanos encontrem espaço e razões para viver em África, porque a Europa não os pode conter nem o Brasil os pode acolher. Portugal tem neste momento 60.000 jovens licenciados no desemprego, sem qualquer esperança de poderem utilizar os seus conhecimentos para o progresso do país. Certamente que apenas uma percentagem desses jovens considera a hipótese de pular as fronteiras do comodismo e aceitar o mundo como cenário de vida. A preparação de milhares desses jovens como cooperantes nos países de língua portuguesa em vias de desenvolvimento seria o melhor e mais eficiente dos investimentos em tempo de crise. Esta proposta é certamente recebida pelos políticos e ilustres da república portuguesa como ridícula, pois nem sequer há coragem e visão para preparar uma pequena fatia dos 25.000 professores desempregados para alfabetizar os dois milhões de analfabetos adultos do país. Mas é em tempo de crise (como em tempo de guerra) que necessitamos de soluções radicais e de utilizar os recursos disponíveis e até empenhando os do futuro, para enfrentar os desafios do crescimento. É também em tempo de crise que muitas vezes, aquelas realidades tristes que são evidentes para os simples e humildes, são finalmente enxergadas pelas mentes doutas e esclarecidas. E esta proposta é não somente uma proposta de futuro como sobretudo um investimento estratégico no perfil ético e produtivo da sociedade portuguesa.

O futuro da língua portuguesa no mundo está ligado ao da cultura luso-brasileira, ao da capacidade de resposta aos desafios enormes que se colocam à escala de três continentes, à criação de um novo perfil ético e produtivo capaz de encontrar soluções inovadoras para remover os obstáculos ao progresso e às legítimas aspirações dos cidadãos. O movimento terá que levar, na mesma enxurrada criativa, à transformação dos subúrbios urbanos das grandes cidades, à educação das massas através de uma escola cidadã, à educação para a saúde, à integração das comunidades menos produtivas, ao combate à corrupção e à exploração dos desfavorecidos, à defesa dos valores ecológicos, ambientais e climáticos, à poupança dos recursos naturais perecíveis, à procura de fontes alternativas de energia. Nada disto é possível sem um intercâmbio de conhecimentos e uma partilha de tecnologias, fazendo de todo o espaço da língua portuguesa aquela feira universal do sermão de Vieira de 1674, dedicado à rainha Santa Isabel, na capital do mundo de então.

A cultura luso-brasileira continua ameaçada, mas tem condições e recursos para se afirmar como uma das incubadoras de criatividade mais eficientes e promissoras do mundo, enfrentando problemas que são os maiores que hoje se colocam à imaginação dos cidadãos e podendo servir de exemplo e de modelo a outras culturas. Resolvendo os seus próprios problemas, os povos de língua portuguesa apresentam soluções para os problemas do mundo. Acabar com a iliteracia das massas, transformar as periferias urbanas em espaços habitáveis e socialmente equilibrados, criar condições para que os cidadãos possam encontrar nos seus espaços naturais de vida as condições da sua sobrevivência e da sua felicidade. Fazer com que os africanos não tenham mais razões para fugir de África, com que os portugueses não tenham mais necessidade de emigrar para outros países, que os brasileiros das grandes cidades não tenham mais medo da bala perdida, são desafios suficientes para projectos do novo milénio, à medida das virtudes daqueles que, em outros tempos, criaram o mundo de língua portuguesa, sem outros recursos que os da sua imaginação e uma invejável coragem. Como dizia Vieira, os portugueses sempre tiveram pouca terra para nascer e o mundo inteiro para crescer e morrer. Mas depois que eles fizeram do mundo inteiro o terreiro das suas paixões, as leivas dos seus arados e espalharam por esse mundo os seus genes e a sua língua, o desafio dos nossos dias consiste em fazer com que cada qual no seu espaço reconstrua a sua vida, transformando as sociedades degradadas em sociedades ordenadas e o mundo que é no mundo que há-de ser: um espaço onde todos assumam a sua responsabilidade de contribuir para o bem comum e onde cada qual, ao seu jeito e feitio, beneficie dos bens criados por todos os demais. É a isto que se chama cidadania. Como dizia o trapista da cabana de Brasília, o inimitável Agostinho da Silva: Se fizeres, és; se não fazes, serias. Então, a solução é simples: fazer.

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