Poemas e Flores de inverno

Por Dalila Telles Veras

E este veranico que vem desde o outono e entrou no inverno que se recusa a começar? Assim, enquanto o frio não chega, vamos a la playa, como diriam (ou cantariam) os Righeira, de minha juventude que falavam (protestavam?) de bomba atômica (el viento radiactivo) num som que hoje é conhecido por tecno. Moderna foi minha geração, que antecipou (quase) tudo. Fui. Mas o que eu queria mesmo dizer (escrever) é que nestes últimos três dias passados na praia, sob um espetacular sol de inverno, não me saía da cabeça este enigmático poema, do grande poeta português Eugenio de Andrade:

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IMPROVISO

uma rosa depois da neve.

Não sei que fazer

de uma rosa no inverno.

Se não for para arder,

ser rosa no inverno de que serve?  

Vale recordar aqui a interessante trajetória desse poema. No Natal de 1999, o poeta enviou ao Dr. Joaquim de Montezuma de Carvalho, a título de cartão de natal, o poema Improviso.

Em 2000, com o propósito de homenagear o poeta pelos seus 80 anos (que seriam completados em 2003), o Dr. Montezuma, reenviou o facsimile do poema/cartão a escritores de seu relacionamento (portugueses, latino-americanos e africanos), solicitando que lhe enviassem textos que dialogassem com esse poema.

À medida que iam chegando (de 2000 a 2002), esses textos iam sendo publicados no Caderno Artes das Letras do jornal O Primeiro de Janeiro, do Porto.

Graças a essa original iniciativa do saudoso Dr. Montezuma, ilustre homem de letras e incansável animador e divulgador das literaturas luso-brasileira e africana, aquelas cerca de duas centenas de releituras, glosas, análises, comentários e outros tantos tipos de textos  foram transformados num extraordinário volume, que veio a ser publicado em 2004, que levou o título A jeito de homenagem a Eugénio de Andrade (Fólio Edições/O Primeiro de Janeiro).

Tive a honra de ser uma das colaboradoras, com este poema, também publicado no meu livro À Janela dos Dias (Alpharrabio Edições, 2002):

Releitura de improviso

Se não for para arder,

ser rosa no inverno de que serve?

Eugénio de Andrade

 

rosa da neve nascida

rosa de inverno

rosa sem cheiro

rosa a mercê dos ventos

rosa dos ventos?

essa rosa, então não serve?

 

rosa carmina, afogueada

carne viva irredolente

rosa inconstante

pelo poeta transmutada

rosa abrasada

é poema em ardência

 

Hoje ao chegar em casa e contemplar estas singelas flores de maio que, neste ano, resolveram florescer no inverno, vejo que podem servir como justificativa deste um tanto quanto confuso post,que mistura flores fora da estação, estações trocadas e poemas enigmáticos. dtv)   

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