Se eu pudesse sempre falar claro

Por Isabel Gouveia

Se eu pudesse sempre falar claro, sobre a tristeza que reduz os campos a um emaranhado de silveiras, ou descartáveis despojos de florestas teimando em conservar árvores mortas, que morreram de pé com dignidade…

Se eu pudesse sempre falar claro, sobre a futilidade das vivendas desses grandes magnatas, que deslumbram com jardins assinados por autores, vanguarda de arquitectos-paisagistas, com as suas piscinas de águas moles, onde passam as tardes mais amenas ao ritmo de discursos amigáveis, fogo cruzado de ambição e inveja…

Se eu pudesse sempre falar claro, sobre a pseudociência de algumas entrevistas em que se arrotam frases apanhadas nas redes que, em crianças, já serviram a ilustríssimos entrevistados pra caçar as afoitas borboletas, adejantes, volteando em seu redor…

Se eu pudesse sempre falar claro, sobre os fantasmas de geniais poemas que vomitam metáforas sem norte, hermetismo-guindaste para a fama, ou o sucesso que persegue a Arte que ausculta as tendências do mercado…

Se eu pudesse sempre falar claro, sobre um povo com tanta ingenuidade que confia nos slogans da TV, que atende, tão solícito, a menina que explica ao telefone esta mecânica: solicita-se ao Banco algum dinheiro, viaja-se sem culpa pelo mundo, por rotas bem longínquas ou lendárias, e depois se verá como pagar…

Se eu pudesse sempre falar claro, sobre a esperteza que é também saloia, qual droga que alastrou e já domina, ataca o nobre cidadão que mente ao depor sobre amigo em tribunal, ataca muitas vezes altos funcionários e os mais altos dirigentes nacionais, que atingiram as rédeas do poder trepando pela via trapaceira do insulto e da denúncia caluniosa…

Se eu pudesse sempre falar claro, sobre o pendor influenciável das turbas que não sabem sequer de que é que tratam os comícios programados de antemão, nas praças das cidades ou das vilas, mas acompanham grandes comitivas de propaganda eleitoral diversa, com sua pirosice desbragada nos gestos e nas falas…

Se eu pudesse sempre falar claro, sobre tanta pobreza envergonhada que pretende iludir amigos e vizinhos com suas idas ao café da esquina, suas tardes passadas no café da esquina, em frente duma chávena pequena e dum folhado com creme endurecido, enregelado no balcão de vidro – mas nessa tal pobreza envergonhada inclui-se a carecida de carinho, a que procura fontes de calor nos cafés das esquinas, refrigerados pelo ar condicionado – ;

Se eu pudesse sempre falar claro, sobre os velhos que vivem solitários ou são distribuídos pelos lares como trapos sem préstimo nenhum, que têm pesadelos, noite e dia: viagens para longe, em contentores despejados depois nesses aterros onde vão ter a sua morte lenta, ou, em alternativa, incinerados, desfeitos em adubo para plantas, matéria útil, neste mundo que evita desperdícios…

Finalmente, se eu pudesse sempre falar claro, sobre vidas tão pobres de alegria apesar de exibirem numa estante selectas fontes de dizeres sábios: se há pensamento positivo, há êxito…

Se eu pudesse sempre falar claro, sobre o sentido (ou a falácia?) de tais livros sábios que pretendem mostrar aos infelizes, de suposta maneira racional, o fundamento lógico de haver pessoas bafejadas pela “sorte”…

Como se fosse fácil transformar a própria natureza, a faculdade (ou o defeito) de visionar o mundo tal como se apresenta, a faculdade (ou o defeito) de não deitar pra trás das costas a tristeza que recobre os campos, as luxuosas vidas dos magnatas, as barracas humildes, a trapaça de alguns comentadores jornalísticos, a ingenuidade que desculpa os Bancos que dizem realizar os sonhos impossíveis, a esperteza saloia que dá cargos importantes a gente sem valor e pretende humilhar gente séria que recusa o compadrio, a hipocrisia, o amiguismo

Se eu pudesse sempre falar claro, sobre a pobreza envergonhada, material ou psíquica, a velhice pesada e solitária, e se possível reduzida a pó que ainda possa servir para alimento dos campos desprovidos de verdura, na nossa ilustre e sofredora Pátria…

Se eu pudesse sempre falar claro, seria condenada a perecer nas fogueiras de nova Inquisição, ou protegida pelo Deus-menino, no próximo Natal que se avizinha?!…Trará dois mil e dez a redenção?

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