“OS SERTÕES” de Euclides da Cunha e o Sebastianismo de António Conselheiro

Centenário 

“OS SERTÕES” de Euclides da Cunha e o Sebastianismo de António Conselheiro

João Alves das Neves (*)
Retrato de Euclides da Cunha - fonte: blog.estadao.com.br

Retrato de Euclides da Cunha - fonte: blog.estadao.com.br

Com aproximação do centenário da morte de Euclides da Cunha (19 de Agosto de 1909) impõe-se nova leitura da reportagem de Canudos e do livro Os Sertões.

Recorda-se que a viagem foi realizada  por sugestão de  Júlio Mesquita, diretor de O Estado de S. Paulo, após a publicação neste jornal dos 2 artigos de Euclides sobre A nossa Vendéia (em 14 de Março e 17 de Julho de 1897), estabelecendo paralelos entre a insurreição dos “vendéanos” (1793 a 1796), que combateram os excessos da Revolução Francesa,  reprimindo as atividades religiosas. No caso do Brasil, era o combate republicano aos monarquistas. 

Neto do comerciante português  Manuel da Cunha e filho do também comerciante Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e de D. Eudóxia Moreira, o futuro militar, engenheiro e escritor nasceu em 20 de Janeiro de 1866 numa fazenda de Cantagalo (Rio de Janeiro) e morreu em Piedade (RJ) no dia 15 de Agosto de 1909, mas foi com os artigos comparando os acontecimentos da Vendéia e de Canudos (no Vale do Iripiranga ou Vaza-Barris) que começou verdadeiramente a sua carreira literária. 

Euclides salientava que Canudos albergava “a horda dos fanatizados sequazes de Antonio Conselheiro, o mais sério inimigo das forças republicanas” e citava a Vendéia,  acrescentando: “A mesma coragem bárbara e singular e o mesmo terreno impraticável aliaram-se, completaram-se. O chouan fervorosamente crente (dos vendeanos) ou o  tabaréu  fanático, precipitando-se impávido à boca dos canhões que tomam a pulso, patenteiam o mesmo heroismo mórbido numa agitação desordenada e impulsiva de hipnotizados”. 

No 2º. artigo, Euclides comenta a “notícia do lamentável desastre” sofrido pelos militares que haviam enfrentado “a horda dos fanatizados sequazes de Antonio Conselheiro” e compara o “desastre” aos suportados pela Inglaterra, França e Itália ou pela Espanha  no combate aos insurretos de suas colônias, no início do século XIX e aguardava \a vitória das tropas da República, “quando forem desbaratadas as hordas fanáticas do Conselheiro.  Não foi tanto assim…  mas as informações de Euclides levaram Júlio Mesquita a convencê-lo a fazer a reportagem sobre o fenômeno de Canudos e no dia 7 de Agosto de 1897 ele escrevia a primeira crônica, ainda a bordo do vapor “Espírito Santo”, pelo qual chegara a Salvador  (“O Estado”, 18-8-1897). E mais uma trintena de crônicas seriam divulgadas, a última das quais  sob o título de “O Batalhão de São Paulo” (26-10-1897). 

Em 10 de Agosto, o repórter escrevia de Salvador: “A opinião geral, entre os combatentes que voltam, é que estamos no epílogo da luta.” E em 12 de Agosto falava do regresso dos feridos, dando outros pormenores dos combate e em  13, 15, 16, 18, 19, 20 e 21. Somente em 1º. de Setembro seguiu para a “frente” do conflito, informando de   Queimadas: “o dia esgota-se em preparativos de viagem”, mas voltou a escrever da mesma povoação no dia 4 e, no mesmo dia, enviou carta já de Tanquinhos. A 5 deu notícias de Cansação e, nesse dia, escreve de Quirinquinquá e, em  6, 7, 8, 9, 10 e 11 de Monte Santo, dizendo que no dia 10 já avistara “o imenso arraial de Canudos”, sublinhando: “Dois meses de bombardeio permanente não lhe destruiram  a metade sequer das casas (…) E olha-se para a aldeia enorme e não se lobriga um único  habitante.” 

A narrativa prosseguiu  em 24, 26 e 27 e  adiantou que nesta última  madrugada a fuzilaria  tinha durado 2 horas e meia, adiantando que desde as 9 da noite houvera mais tiroteio até às 9 da manhã seguinte. No dia 29 de Setembro, mais tiros. E em 1º. de Outubro ‘”foi ordenado o assalto” às posições do Conselheiro, esclarecendo: “A noite desceu serenamente  sobre a região perturbada do combate e rasgando o seio da noite, caindo, insistentes, sobre todos os pontos da linha do cerco, sibilando em todos os tons, sobre o acampamento, inúmeras, constantes,  da zona reduzida em que se encontravam os jagunços, irrompiam as balas”. E com estas palavras Euclides da Cunha fecha a reportagem. 

                                  

O Sebastianismo do Conselheiro

Os paralelos que possam estabelecer-se entre a série de textos jornalísticos  e Os Sertões são evidentes,  apesar de haver pormenores do repórter que não foram repetidos na obra literária – um dos mais importantes clássicos das Letras Brasileiras. 

A reportagem não entro, porém, na análise da influência que Antonio Conselheiro recebeu, inequivocamente, do Sebastianismo , que pairou igualmente sobre outros místicos brasileiros  (um estudo que ainda não se fez, apesar de numerosas aproximações, tanto no Brasil como em Portugal). No entanto, o escritor de Os Sertões fala claramente desse misticismo que tão profundamente é guardado pelo espírito lusíada. 

Euclides da Cunha comenta essa ligação dos dois povos atlânticos e documenta-a expressicamente no seu livro principal: 

            “E no meio desse extravagante adoidado, rompendo dentre o messianismo religioso, o messianismo da raça levando-o  `insurreição contra a forma republicana: 

            “ Em verdade vos digo, quando as nações brigam com as nações, o Brazil com o           Brazil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prússia com a Prússia, das ondas do mar  D. Sebastião sahirá com todo o seu exército e o restituio em guerra.

             “Desde o princípio do mundo que encantou com todo seu exército e o restituio 

            em guerra. 

            “ E quando encantou-se afincou a espada na pedra, ella foo até aos copos e elle

             disse: Adeus mundo! 

            “Até mil e tantos e dois mil não chegarás! 

            “Neste dia quando sahir o seu exército tira  a todos no fio da espada deste papel da República. O fim desta guerra se acabará na Santa Casa de Roma e o   sangue hade ir até á junta grossa…”

 

Intervém  Euclides da Cunha para completar:

“O profetismo tinha, como se vê, na sua boca, o mês,o tom com que despertou em Frigia, avançando para o Ocidente. Anunciava, idêntico, o juízo de Deus, a desgraça dos poderosos, o esmagamento do mundo profano, o reino de mil anos e suas delícias”. E Euclides vai mas longe ao indagar: “Não haverá, com efeito, nisto, um traço superior de judaísmo?”  

É com base nas trovas Sebastianistas da época que Euclides reproduz algumas delas:

                         “Sahiu D. Pedro segundo

                        Para o reyno de Lisboa

                        Acabou-se a monarquia

                        O Brazil ficou atoa!

 

E atacava os incréus:

                        “Garantidos pela lei

                         Aquelles malvados estão,

                        Nós temos a lei de Deus

                        Elles tem a lei de cão! “

 

                        “Bem desgaçados são elles

                        Pra fazerem a eleição

                        Abatendo a lei de Deus

                        Suspendendo a lei do  cão! “,,  

 

                        “Casamento vão fazendo

                        São para o povo illudir

                        Vão casar o povo todo

                        No casamento civil. “

 

            E logo  cantam os trovadores a pregação de Antonio Conselheiro:

                         “Dom Sebastião já chegou

                        E traz muito regimento

                        Acabando com o civil

                        E fazendo o casamento! “

 

                        “O Anti-Christo nasceu

                        Para o Brazil governar

                        Mas ahi está o Conselheiro

                        P’ra delle nos livrar! “

 

                        “Visita vos vem fazer

                        Nosso El-Rei D. Sebastião

                        Coitado daquelle pobre

                        Que estiver na lei do cão! “

 

A-par da sua permanente pregação, eram distribuídos em toda a parte  os tradicionais folhetos de cordel, que ainda hoje  circulam pelo Brasil, em especial no Nordeste, versos em que os militantes de Antonio Conselheiro difundiam os seus propósitos. Aliás, outros autores têm  estudado o Sebastianismo no Brasil, relevando-se dois romances, a título ilustrativo: Pedra Bonita, romance  de José Lins do Rego, e A  Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna, que ficcionou a existência de cinco “Impérios Sebastiânicos” no Brasil, com vários reis, um dos quais foi degolado pelos vassalos que descobriram a farsa, mas nas lutas entre eles morreram cerca de 140 pessoas (em Portugal, também apareceram diversos “Reis D. Sebastião” e alguns  acabaram na cadeia ou foram condenados à morte). 

Escritores portugueses de mérito estudaram seriamente o problema do Sebastianismo, lembrando-se os nomes do historiador João Lúcio de Azevedo, de Antonio Machado  e de  António Quadros, devendo figurar também nesta lista o folclorista brasileiro  Luís da Câmara Cascudo e a pesquisadora Maria Isaura Pereira de Queiroz, que se pronunciou deste modo: “Anteriormente ao aparecimento de movimentos messiânicos propriamente ditos, existiu no Brasil uma crença proveniente de Portugal, o Sebastianismo, que mais tarde chegou a servir de base para pelo menos dois movimentos (…) – o  da Cidade do Paraíso Terrestre e o da Pedra Bonita”. 

 Porém, o mais ilustre defensor do Sebastianismo foi o Padre António Vieira (a seu modo, é claro), conforme  referenciamos no livros Temas Luso-Brasileiros (1963) e  Pe. António Vieira, Profeta do Novo Mundo (1,  bem como em Congressos e artigos.E oportuno será apontar a breve mas significativa  menção de Fernando Pessoa: “À memória de Antonio  Conselheiro, bandido, louco e santo, que, no sertão do Brasil,  morreu, como um exemplo, com seus companheiros, sem se render, batendo-se todos, últimos Portugueses, pela esperança  do Quinto Império e da vinda quando Deus quizesse, de El-Rei D. Sebastião, nosso Senhor, Imperador do Mundo. (in Pessoa Inédito, pref. e org, de Teresa Rita Lopes). 

Merece esta citação vir antes do remate final de Euclides da Cunha, n’Os Sertões: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História resistiu até o esgotamento. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo,caiu no dia 5, ao  entardecer. Quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram; Eram 4 apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.”                

                                                           ***

 Bibliografia Euclidiana:

Os Sertões (1902), Relatório da Comissão Mista Brasileiro-Peruana  de Reconhecimento do Rio Purus (1906), Castro Alves e seu Tempo  (1907), Peru  versus Bolívia (1907), Contrastes e Confrontos (1907), À Margem da História (1908), Canudos (Diário de uma Expedição, 1939), Discurso de Recepção na Academia Brasileira de Letras  (em Obras Completas, 1966).     

(*)  João Alves das Neves é  escritor, foi redator-editorialista de O Estado de S. Paulo e professor/pesquisador da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Tem  mais de 25 livros publicados (6 sobre temas pessoanos), nasceu em Portugal e vive em São Paulo há 50 anos.

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One Comment em ““OS SERTÕES” de Euclides da Cunha e o Sebastianismo de António Conselheiro”

  1. clarire Says:

    muito bem esplicado,diria viciante são trechos revigorantes aos quais nos fazem viajar por caminhos de terra, onde a simplicidade a coragem a nesecidade e a vontade de lutar por uma vida digna fazem um pedaço da história do sertâo de um povo “arretado” poucos podem acreditar mais o sertâo de António ainda vive


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