A História de Portugal e Brasil nos vitrais da Beneficência

Por  João Alves das Neves

Fundada em 2 de outubro de 1859, a Real e Benemérita Associação Portuguesa de Beneficência mantém em São Paulo o Hospital São Joaquim, que dispõe de cerca de 2000 leitos e 1500 médicos, uma cinquentena de salas de cirurgia e equipamentos do mais alto nível.

Foto de Jurandir Lima

Foto de Jurandir Lima

Não é somente por isso que se destaca mas também porque reúne um dos mais importantes acervos artístico-históricos, principalmente no domínio dos vitrais – 48, distribuídos pelo salão nobre “Padre Manuel da Nóbrega”: (33 painéis), Capela (11) e fachada (4). Idealizado pelo Com. Abílio Brenha de Fontoura, é “um translúcido e colorido relicário a guardar, como um todo unido no tempo e no espaço, Portugal e Brasil”, disse o Poeta Guilherme de Almeida, que com os seus conhecimentos de heráldica teve participação direta na obra, cujos retratos e brasões foram ilustrados por Zucaro (pintor), Aristach (desenhista) e Leonardo Renhauer (responsável pela cor), sendo a execução de Conrado Sorgenitch, ao passo que a reprodução do políptico de São Vicente é cópia do original que se conserva em Lisboa.

Na entrada principal do edifício, apontam-se as figuras de São Joaquim (patrono do hospital), o Rei D. Afonso Henriques, a Rainha Santa Isabel e Pedro Álvares Cabral, esclarecendo-se que as peças são de 3 épocas distintas – as da fachada vieram do primeiro hospital (de 1876), as do salão nobre têm pouco mais de meio século e as da Capela são da década 60 do século XX, com imagens dos santos e beatos: Rainha Santa Isabel, São João de Deus, São Gonçalo, São João de Brito, Santo António de Lisboa e os Beatos Nuno Álvares Pereira e Inácio de Azevedo, além dos batizados de Cristo e do índio Diogo e mais 2 imagens sacras.

No fundo do salão nobre, encontra-se a cópia fiel do discutido políptico de São Vicente de Fora, atribuído a Nuno Gonçalves, separado em vitrais com 10 colunas com as seguintes inscrições: “Painel dos Frades”, “Painel dos Pescadores” – “Lisboa E.D. 1465” – “Nuno Gonçalves” – “Painel do Infante”, “Painel dos Cavaleiros”, “Painel da Relíquia”. Dos estudos em torno desta obra, salientamos a conferência “A Epopéia da Raça nos Vitrais da Beneficência Portuguesa”, proferida em 9 de setembro de 1961 pelo historiador Pedro Calmon, segundo o qual o salão Padre Manuel da Nóbrega é “o mais belo e sugestivo do país” – uma presença do passado “mais viva e poética”, como se fosse um Livro de Horas, “ilustrado e velho livro iluminado com as grandes cenas e personagens insignes da nossa tradição, convivendo com as sombras veneráveis dos homens que fizeram o Brasil”.

Explicando o sentido e o espírito dos vitrais, acrescentou Pedro Calmon: “A história principia com o sonho do Infante de Sagres deitando, das alturas do promontório, o olhar profético pelo mar “nunca dantes navegado”, vendo, e prevendo, para lá do horizonte físico, o perfil verde da terra adivinhada. Começa a história do Brasil com a epopéia das navegações e descobertas, quando o Infante D. Henrique como que abriu, com as suas mãos poderosas, as cortinas que velavam o mundo novo: e isto é incomparavelmente sugerido pelo políptico que se conserva no Museu de Arte de Lisboa, as famosas tábuas de Nuno Gonçalves”.

Foto de Jurandir Lima

Foto de Jurandir Lima

Os restantes vitrais do “Salão Padre Manuel da Nóbrega” ilustram, do lado direito, o Infante D. Henrique (o homem que sonhou e promoveu as pioneiras viagens interoceânicas), o Rei D. Manuel I (1495-1521), o Rei D. João III (1521-1557) e o colonizador e povoador Martim Afonso de Sousa (1530-1533), anotando-se igualmente o conjunto de 4 vitrais evocativos da chegada de Pedro Álvares Cabral e seus companheiros a Porto Seguro, bem como outros vitrais com os nomes e brasões dos navegantes e descobridores das novas terras.

Do lado esquerdo do grande salão, enumeram-se os homens que consolidaram o território de Vera Cruz: João Ramalho (1531), que fundou Santo André (a primeira povoação do planalto) e foi co-fundador de São Paulo, vindo depois os Padres Manuel da Nóbrega e Manuel de Paiva (que lançaram as bases de São Pulo), os quatro vitrais dos Bandeirantes (“Andam sempre de vigia / em contínuos perigos / com mil sobressaltos de Corpo e Alma”), vendo-se também o Padre António Vieira e a Rainha D. Leonor, que fundou em 1498 as Misericórdias, cujo espírito haveria de se alargar no século XIX às Beneficências dispersas por Portugal, Brasil e outras terras distantes. E constam ainda desta banda da sala nobre os brasões e pessoas que desbravaram e consolidaram a Nação Brasileira.

Por tudo isto se dá razão ao historiador Pedro Calmon, ao ponderar que o “Salão Padre Manuel da Nóbrega” é mais do que um símbolo: “Realmente, atinge o idioma a sua maturidade, o sentimento nacional desponta e afirma-se. A fisionomia do povo como que adquire o seu contorno físico, o Brasil ergue-se na oratória daquele padre (António Vieira) que tinha o discernimento do político e a visão do profeta”.

A BENEFICÊNCIA E AS MISERICÓRDIAS PELOS POETAS

Luiz Semião Ferreira Vianna, Joaquim Rodriguez Salazar e Miguel Gonçalves dos Reis

Luiz Semião Ferreira Vianna, Joaquim Rodriguez Salazar e Miguel Gonçalves dos Reis

No decorrer das comemorações, em 1959, do 1º centenário da Real e Benemérita Associação Portuguesa de Beneficência de São Paulo foram muitas e variadas as homenagens da Imprensa, das Autoridades Portuguesas e Brasileiras e até de alguns Escritores à instituição fundada em 2 de outubro de 1859.

Destacamos, entre essas homenagens a de Judas Isgorota, consagrado Autor Paulista, que publicou, na oportunidade, o “Poema Todo de Ouro”, transcrito a seguir:

Cinzelando o ouro velho, ouro de lei, maciço,

da mais augusta tradição coimbrã,

eu quis fazer uns áureos versos. Um poema

todo de ouro, em que, desde a palavra fúlgida,

à existência formal, desde o ritmo à essência,

tudo fosse moral e exemplarmente belo.

Um poema que lembrasse um lavor de Cellini

e tivesse em seu bojo, resplendente,

o pensamento de ouro

dos versos áureos que escreveu Pitágoras um dia.

Eu queria, porém, que esses meus versos áureos

dirigidos aos homens de manhã,

falassem da Beleza ideal dos crentes e dos simples

em sua exaltação à perfeição excelsa,

que é o Bem, o Amor, a Fé, a piedade cristã.

 

Para tanto busquei a história de três jovens

pobres e serviçais que viveram aqui.

A história se passou precisamente há um século.

São Paulo começava a descer o planalto

para ao depois transpor o Tamanduateí…

Eram eles: Luiz Semeão Ferreira Viana,

o segundo: Joaquim Rodrigues Salazar,

e o terceiro, Miguel Gonçalves Reis.

Os dois caixeiros, aprendizes de caixeiro;

Charuteiro modesto era o Gonçalves;

pobres, humildes, serviçais todos os três…

Tão simples, tão modestos, afinal,

que apenas se guardou de sua origem

terem nascido em Portugal…

Corações feitos de ouro,

almas feitas de luz, dessa luz que é bondade,

compreensão, amor, ternura humana;

dessa luz que ilumina as manjedouras puras;

os três jovens, sentindo as privações, as dores,

a vida ingrata e hostil de seus irmãos

na cidade que fora o seu sonho e que entanto

nada podia dar aos seus concidadãos;

os três, numa divina inspiração lançaram

a semente ideal!

E assim surgiu, precisamente há um século,

pobre, humilde e pequenino,

hoje monumental,

esse marco de glórias, que assinala

em terras de São Paulo a alma de Portugal:

 

– a Sociedade de Beneficência,

pela mais pura origem – Portuguesa:

pelos mais belos feitos – Benemérita:

pelos mais altos títulos – Real!

 

Eu quis fazer uns versos áureos. Um poema

da forma à essência feita de ouro em pó.

Não o fiz, pois que de ouro só o exemplo

 

puder dar-vos dos três:

de Luiz Semeão Ferreira Viana,

de Joaquim Rodrigues Salazar

e de Miguel Gonçalves Reis…

 

Não fiz que o desejar; por ser humano,

é tão precário, que dá dó…

Guardai, porém, o exemplo desses jovens,

que esse exemplo é de ouro, e ouro só!

 

Não menos significativo é o poema de Paulo Bomfim, intitulado No Quinto Centenário da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa que está na gênese das Beneficências Portuguesas (há uma edição do Centro de Estudos Fernando Pessoa), relacionando o texto com as Casas da Rainha D. Leonor de Portugal.

Lembrando essa afinidade, a Real e Benemérita Associação Portuguesa de Beneficência de São Paulo mandou restaurar e colocar um medalhão de mármore, no jardim de entrada da entidade e que tem a seguinte inscrição:

Nossa Senhora da Misericórdia.

Escultura de 1876, restaurada

em 1998, ano do 500º aniversário

de fundação das

Santas Casas de Misericórdia.

Reproduz-se também nesta edição o poema de Paulo Bomfim:

E houve uma Santa Isabel

Semeando rosas no mar.

E um D. Diniz trovador

Transformando seu trovar

Nas flores que o verde pinho

Fez um dia navegar!

E houve naus e houve tormentas

Nos reinos do mar profundo,

E descobertas singrando

O olhar de D. João Segundo!

Senhora Dona Leonor

Coberta de ouro e prata,

De vosso gesto nasceu

A gesta-misericórdia

Em terras de Portugal!

Em vosso real regaço

A pedra da compaixão,

A telha da caridade,

A madeira do socorro

E as argamassas da prece,

Fizeram surgir de agosto

A Santa Casa, asa santa

Subindo aos céus de Lisboa

Na oração de Frei Miguel!

Cinco séculos passaram,

Cinco séculos presentes

Nesse milagre de amor

Que de uma Casa fez tantas

Casas Santas, Santas Casas!

E houve uma Santa Isabel

Semeando rosas aos ventos,

E houve Dona Leonor

Plasmando as Misericórdias

Em seu reino à beira mar!

E essas rosas e essas bênçãos

Hoje são alma e são corpo:

– Santa Casa de São Paulo,

Misericordiosamente,

Santa Casa do Brasil!

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