O Pe. António Vieira: Imperador da Língua Portuguesa

Língua Pátria

O PADRE ANTÓNIO VIEIRA. “Imperador da Língua Portuguesa”
João Alves das Neves (*)

Retrato de Pe. António Vieira

Retrato de Pe. António Vieira

O verso que inspira o nosso título é bem conhecido, depois que foi inscrito por Fernando Pessoa no livro Mensagem, servindo com rarafelicidade para testemunhar a admiração do Poeta pelo grande prosador – e é mais expressivo do que muitas páginas, se considerarmos que Vieira foi, indiscutivelmente, um dos mais significativos utentes do nosso idioma.

Já o dissemos por outras palavras e repetimos o que dissemos, no livro breve que publicámos em 1998: “Com uma formação essencialmente luso-brasileira, tanto no domínio religioso como no da formação cultural, António Vieira ( … ) jamais deixou de ser o mais destacado português e brasileiro do seu tempo.” Hoje, como poderemos catalogar esse conceito? Diferentemente, é claro, mas sem omitir a raiz, porque no idioma está a essência de todas as origens culturais.

Indiscutivelmente, António Vieira pode ser apontado como ponto de partida e de reencontro do país que fez mundos novos para o Mundo, de acordo com a dialética camoniana, núcleo de uma comunhão inter-continental e sem quaisquer ressentimen­tos colonialistas, porque não os havia no tempo do que chamamos “Profeta do Novo Mundo”. O historiador João Lúcio de Azevedo, um dos seus principais biógrafos, declarou que António Vieira foi “um filho genial da raça lusa, singular em tudo e, pelo que de sua vida pertence ao Brasil, quase mais lá que da pátria nativa”, enquanto o ensaísta Hernani Cidade o retratou como ” homem de acção por imperativo da própria natureza e por orientação educativa como orador ou epistológrafo, havia necessaria­mente de utilizar a palavra falada ou escrita como instrumento de acção. ‘,’ Por seu turno, Ivan Lins acrescentou que eleJoi o primeiro liberal abolicionista da modernidade.”

Não queremos afastar-nos do tema proposto e observemos o estilista que, longe do púlpito, reformulou magistralmente os Sermões, Gartas, a História do Futuro, a Chave dos Profeta. ete. E confinemo-nos na releitura dos textos em que o idioma a tudo e a todos se sobrepõe, conforme se deduz dele próprio e dos que buscaram interpretá-Io nessa extraordinária dimensão. A obra de António Vieira, ‘:filho peninsular e tropical” foi ao mesmo tempo “original” e “universal” e, mais do que tudo isso, segundo Miguel Torga, ele foi um “misto de génio, mago e aventureiro. ”

Por sua vez, Fernando Pessoa falou ainda mais claramente: “António Vieira é de facto o maior prosador – direi mais, é o maior artista – da Língua Portuguesa. É-o por isso porque o foi, e não porque se chamasse António. O comando da língua-mãe não vem por val’Onia de nomes próprios”. E o Poeta é ainda mais veemente quando, pela voz do semi-heterónimo Bemardo Soares, proclama de forma inequívoca e altissonante:

 

“Minha pátria é a língua portuguesa.” E esta frase, que de tantas vezes repetida já se tornou um provérbio cada vez mais freqüente, vem no Livro do Desassosego depois da confissão: “Tal pagina, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintática, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida”.

 

Continuando. escreve Pessoa: “Não choro por nada que a vida traga ou leve.  Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me que, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta, o passo célebre de Vieira sobre o Rei Saio mão. “Fabricou Salomão um palácio … ” E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso; depois rompi em lágrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das idéias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando , ainda choro. Não é – não – a saudade da infância, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágua de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfônica.”

 

Conclui Fernando Pes’soa o seu comentário vieiriano: “Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a lín~ua portu~uesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal Escrita, como pessoa própria, , a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ipsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.”

 

E conclui o poeta da Mensagem: “Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu ver o manto régio, pelo qual é senhora e rainha”. (A ortografia é portuguesa e actualizada).

 

Entretanto, assinala-se que para lá deste comentário que aproxima os dois grandes escritores portugueses, Fernando Pessoa dedicou ao idioma outros trabalhos, conforme ilustra o volume póstumo Língua Portuguesa. organizado por Luísa Medeiros (198 páginas, Lisboa, 1997), no qual se acham outros textos pessoanos sobre “O problema ortográfico” e “Defesa e ilustração da Língua Portuguesa”.

 

o nosso propósito foi o de documentar a importância que o Poeta atribuiu à obra do Padre António Vieira, mas recordamos que vários estudos de outros autores portugueses e brasileiros têm sido consagrados ao mesmo tema. E recomenda-se a leitura da História do Padre António Vieira. de João Lúcio de Azevedo (2 vol,’,., Clássica Editora, Lisboa, 1992). E outras informações podem ser anotadas a partir dos 3 volumes dos Anais do Terceiro Centenário da Morte do Padre Antônio Vieira  / Congresso Internacional ( ed. da Universidade Católica Portuguesa/ Província Portuguesa da Companhia de .Jesus, Braga, 1993)

 

(*) Escritor português radicado há muitos anos no Brasil, João Alves das Neves publicou mais de duas dezenas de livros sobre questões literárias (com relevo para a obra pessoana), preside ao Centro de Estudos Am. Fernando Pessoa (co-fundador em 1987) e foi editorialista do diário O Estado de S. Paulo e professor titular e pesquisador da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero (São Paulo).

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