Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

por Teodoro A. Mendes (Tamen)

Retrato de Camões - fonte: ACEAV (www.aceav.pt)

Retrato de Camões – fonte: ACEAV (www.aceav.pt)

Dia de Camões

Tendo origem nos trabalhos de ordem legislativa subsequentes à proclamação da I República, em 1910, no dia 12 de Outubro daquele ano foi publicado um decreto orientador dos novos feriados nacionais que eliminou alguns, especialmente os de ordem religiosa, tendo-se dado naquele Decreto-Lei a possibilidade dos municípios escolherem um dia do ano enraizado nas suas festas tradicionais.

Esta abertura levou Lisboa a escolher para feriado o dia 10 de Junho em honra de Luís de Camões, tendo como base ser  a data do falecimento do grande Poeta, cujo génio representava Portugal, muito embora os republicanos à época fizessem desse feriado uma habilitação de ordem local, portanto, com incidência exclusiva no município de Lisboa., honrando, desse modo o que acontecera nas comemorações camonianas de 1880, em tempo da monarquia constitucional.

Dia de Portugal e da Raça

O dia 10 de Junho veio a encontrar uma exaltação especial com o advento do Estado Novo, em 1933, já com a direcção absoluta de António de Oliveira Salazar, que, embora mantendo o “Dia da Camões”, tendo-lhe dado âmbito nacional, lhe acrescentou o epíteto “Dia de Portugal e da Raça”, tendo isto sucedido no dia da inauguração do Estádio Nacional em 1944.

Com esta designação prosseguiu assim até ao dia 25 de Abril de 1974, com a variante de em 1963 se ter tornado uma homenagem às Forças Armadas Portuguesas, numa glorificação da guerra e do poder colonial.

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Utilizando uma filosofia diversa a Terceira República converteu-o no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em 1978.

Este ano, assinala, que pela primeira vez este Dia seja festejado na capital do Ribatejo, a cidade de Santarém, um velho povoado cuja história remonta ao séc. VIII a C. e cuja população se teria integrado no colonizador romano no tempo que este ali chegou em 138 a. C., tendo colaborado e aceite a primeira designação que lhe foi dada: “Scallabis”, nome por que se tornou conhecido um importante porto comercial do rio Tejo e, mais tarde, um dos mais celebrados centros administrativos da velha Lusitânia.

Durante a ocupação islâmica que se seguiu por quatro séculos, a urbe viu consolidado o seu papel estratégico-militar, cultural e artístico, albergando em si gradas figuras do mundo árabe.

Conquistou o primeiro foral em 1095, concedido pelo rei Afonso VI de Leão, tendo finalmente sido reconquistada em 1147 pelo nosso primeiro rei, que lhe deu novo foral em 1179.

O Dia 10 de Junho, perdeu, na actualidade, o sobrenome que já teve e que o identificava, alçando a Raça portuguesa, que hoje, segundo alguns é uma expressão pouco compatível com os valores de Abril e o regime democrático, como aconteceu dizer-se em 2008, quando o Presidente da República no seu discurso, disse: Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça, o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

É lastimável que Portugal se esteja a deixar adormecer quanto aos valores que estão na base da celebração deste Dia, de que resulta que todos os portugueses que foram educados nas escolas  públicas – e não só  –  após o 25 de Abril, não só desconhecem Camões, ou quem foi o Padre António Vieira e outros vultos ilustres e, muito menos, sabem o que representou e devia representar para o Mundo o universalismo português, pelo facto de desconhecerem “os Lusíadas”, pois só com muita dificuldade integram o seu autor, que é uma figura universal, na História de Portugal.

Deve assinalar-se que Camões, que figura como patrono do Dia 10 de Junho desde a sua implantação, foi um deserdado do poder coevo que o desterrou durante 17 anos para as paragens inóspitas do Oriente, onde ele “pobre como Jó”, apesar disso, do abandono e da miséria não esqueceu jamais a Pátria, cantando para que o Mundo soubesse, as glórias das figuras maiores de Portugal e, sobretudo, tendo dado um ênfase especialíssimo à gesta dos Descobrimentos, que eternizou a memória grata de todos aqueles que se foram da lei da morte libertando, com a mira apontada para Vasco da Gama.

Celebrar, hoje, este Dia, apesar das lamúrias dos que não gostam que a “Raça”seja algo que deve estar subjacente à memória de um povo que alargou o conhecimento dos Continentes, deve continuar a ser um motivo de exaltar a força de  um colectivo pequeno mas cheio de qualidades.

Num tempo padrasto em que as glórias portuguesas parecem esfumar-se na grande loca do tempo e no esquecimento dos homens, é de louvar que haja um Dia propício para homenagear os que sobressaem da vulgaridade, dando-se azo a que seja lembrado o nome glorioso de Camões, como exemplo do homem que embora esquecido na época em que viveu, na qual a pobreza material o acompanhou como fadário, sem deixar de  fazer dele o paradigma de um povo virtuoso – que nunca foi rico – mas que deu mais coisas ao Mundo do que dele recolheu.

Homem sofrido pelo abandono forçado da Pátria, mostrou, como apesar de todos os desencantos que certamente não deixou de contar, ainda assim encontrou força para cantar em versos imorredoiros as figuras gradas da nossa História, de onde sobressai a gesta hercúlea dos Descobrimentos, glorificando os heróis dos mares que romperam os monstros das ondas e todos os Adamastores, contra todas as lamúrias dos velhos do Restelo.

E é, neste contexto que os versos de outro Poeta, Manuel Alegre – felizmente, entre nós – se agigantam, porque é preciso que no Dia 10 de Junho o povo que somos, se lembre, que a determinação, a força e o arreganho dos nossos avoengos, são leiras onde havemos de continuar a deitar a semente, neste País pequeno, que não pode nem deve deixar que a memória se apague, porque é preciso e urgente continuar a viagem, até, porque somos, um

PAÍS DE MUITO MAR

Somos um país pequeno e pobre e que não tem
senão o mar
muito passado e muita História e cada vez menos
memória
país que já não sabe quem é quem
país de tantos tão pequenos
país a passar
para o outro lado de si mesmo e para a margem
onde já não quer chegar.
País de muito mar
e pouca viagem.

Lembrar, hoje o dia 10 de Junho, faz, pois, todos o sentido, porque, como diz o Poeta temos muito passado e muita História e cada vez menos memória e um dos grandes motivos é que o povo volte a saber quem é, não só por aquilo que foi, mas pelo que tem de voltar a ser – e não – olhar o ver o país a passar para o outro lado de si mesmo e, sobretudo, porque não podemos, sem nos demitirmos da nossa secular História, passar para uma margem, onde parafraseando Manuel Alegre, até parece, que é um destino onde já não queremos chegar.

É urgente voltarmos a saber quem somos e o que fomos e ter orgulho na Pátria que destina um dia para lembrar os que, na actualidade, merecem ser distinguidos com exemplo a seguir pela colectividade.

Somos, efectivamente, um País pequeno e pobre e que não tem senão o mar, mas que, tendo um dia partido à aventura,  enriqueceu o mundo e é, este facto, que tem de continuar a ser exaltado no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, este ano, em Santarém, cidade altaneira que é um livro de pedra, carregado de história, que vale a pena recordar no traço largo que este apontamento permite.

Recuando no tempo, sabe-se que a altaneira fortificação  “Praesidium Julii” [1]  teria sido em parte muralhada, defesa destruída e reconstruída pelas sucessivas intervenções guerreiras dos Suevos, Visigodos e Árabes, do século V ao século VIII, e em 1147, quando D. Afonso Henriques empreendeu a sua conquista já existia, além dessa muralha, o castelo e a alcáçova.

No tempo de D. Fernando, deve-se a este monarcas a ampliação do muralhamento primitivo e a reforma de portas, como a de Santiago com a sua ogival, tendo D. João IV e mais tarde D. Miguel, promovido a realização de algumas obras no conjunto defensivo.

Ir, pois, comemorar o Dia 10 de Junho a Santarém é, igualmente, um modo de dar sentido e memória do povo que somos e que se revê na astúcia do cavaleiro Mem Ramires que o rei Afonso mandou para estudar o plano de assalto à cidade, em poder dos mouros, o que aconteceu em 15 de Março de 1147, tornando-se Santarém a primeira cidade a ser conquistada, no tempo histórico em que estava em marcha a Reconquista Cristã.

Santarém é uma cidade intrometida na História de Portugal, registando-se o facto do seu castelo em 1245 ter sido dos primeiros a reconhecer o infante D. Afonso – que viria a ser Afonso III – como regente do Reino por incapacidade do irmão, D. Sancho II, deposto pelo poder papal, reforçando o seu papel interventivo no século XIVe de apoio, aquando da revolta em 1324 do que viria a ser o rei D. Afonso IV, contra seu Pai, D. Dinis, que ali faleceu no ano seguinte.

Assistiu, impotente, ao refúgio que se viu forçada a dar à rainha viúva Leonor Teles, sofrendo a afronta do seu castelo ter alojado as tropas castelhanas do rei consorte de D. Beatriz, que só foram expulsas em 1385, após a batalha de Aljubarrota. Em tempo mais recente, Santarém e o seu castelo foi reduto das tropas de D. Miguel, entre Outubro de 1833 a Maio de 1834.

O castelo roqueiro, emblema de Santarém é a referência histórica que imerge do fundo do tempo para a actualidade, que em boa hora escolheu a cidade, onde Portugal espera ver distinguidos pelo Senhor Presidente da República as figuras, cujo passado hão-de merecer a honra de ser caminho para os portugueses deste tempo e para os vindouros.

Honrar Portugal é um dever, quase sagrado, porque se traça de enaltecer os homens e a sua raça, não como um grupo homogéneo de indivíduos cujos caracteres biológicos são constantes e se conservam pela geração, mas pela arte vivencial de um povo histórico proveniente de cruzamentos rácicos e que da diversidade encontrou ao longo dos séculos, a arte de ser português.

Honrar Camões tem de continuar a ser um dever que nos cabe na transmissão que deve ser feita do seu valor, enquanto um Homem que perante os desaires de um tempo magro soube encontrar a riqueza de servir, porque tendo em vista erguer um padrão eterno à glória da Pátria, imortalizando-a e aos seus concidadãos,  disse: (Canto V, estrofe 100)

Porque o amor fraterno e puro gosto
De dar a todo o Lusitano feito
Seu louvor, é somente o pressuposto
Das Tágides gentis, e seu respeito.
Porém não deixe enfim de ter disposto

Ninguém a grandes obras sempre o peito,

Que por esta, ou por outra qualquer via,
Não perderá seu preço, e sua valia. 

Honrar as Comunidades Portuguesas, devia ser, para além de uma lembrança dos ausentes, uma reflexão sobre cerca de cinco milhões de portugueses que pelos mais variados aspectos, procuram na Europa, nas Américas, na Oceânia e em África, uma vida que a Pátria lhes não soube dar.

Devia ser, ainda, uma reflexão sobre o fecho dos Consulados que ocorreu em 2007, deixando cada vez mais longe os laços com a origem, tendo em conta que os “consulados virtuais”, via Internet, retiram a via directa do encontro e tudo quanto representa de afecto o contacto entre pessoas.

Pese, embora, tudo isto, que é um sinal dos tempos actuais, o que tem de continuar a ficar de pé, é o símbolo da Pátria – focado em Camões – que bem merecia outro tratamento na Escola pública, porque esta não pode continuar a esquecê-lo, enquanto Homem e Poeta, dos maiores que até hoje ergueram os Heróis nacionais como bandeiras honrosas, lembrando-os, ainda que eles, como aconteceu com Camões, não tenham tido enquanto vivos, as honras que lhe eram devidas.


[1]  – Na sequência dos combates travados pelas tribos peninsulares com as hostes romanas invasoras, sequência entremeada de conflitos militares entre caudilhos romanos, mas com desfecho na Hispânia, chegou o ano 90 a. C. em que Caio Júlio César, governador das terras hispânicas a oeste do Ebro, que constituam, na organização romana, a Província Ulterior, se apossou definitivamente de Santarém, e, instalando aqui uma guarnição romana permanente, significativamente lhe mudou para Praesidium Julii a velha denominação Scalabis; significativamente, porque ao facto e ao nome não pode deixar de crer-se correspondente à edificação de fortificações. E quando, o traçado vial cujo desenvolvimento acompanhou a romanização fez passar por ali uma das mais importantes estradas militares da Península – a de Lisboa a Astorga, por Conimbriga, Cale e Bracara – bem se radica a convicção de conservar-se fortificado o morro de Santarém.

Advertisements
Explore posts in the same categories: Sem categoria

Etiquetas: , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

One Comment em “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”


  1. […] Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas Junho, 2009 5 […]


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: